Título: Olimpíada pode ter efeito político na campanha de 2010
Autor: Rosa, Vera
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/10/2009, Nacional, p. A9
Ministro diz que oposição "vai ter que engolir" liderança de Lula, sinal de que esporte vai turbinar candidatura de Dilma
Com o mote do "país vencedor", que derrota crises e vira o jogo, o governo vai usar a escolha do Brasil para sediar a Olimpíada de 2016 na campanha da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), ao Palácio do Planalto. A ideia é capitalizar a vitória no palanque. Espectador privilegiado da cerimônia que selou o destino brasileiro, em Copenhague, o ministro do Esporte, Orlando Silva, não tem dúvida de que a decisão do Comitê Olímpico Internacional (COI) será incluída na lista de "conquistas" do governo Lula e causará impacto eleitoral.
"A oposição vai ter que engolir a liderança incontestável do presidente Lula", diz o ministro. "A Olimpíada pode ter efeito político na campanha de 2010." Comunista de carteirinha e integrante do PC do B, Silva afirma que o PSDB do governador de São Paulo, José Serra - também pré-candidato ao Planalto -, vai dar "murro em ponta de faca" se quiser desvincular os "feitos" obtidos por Lula da campanha de Dilma. No seu diagnóstico, a ministra será a principal beneficiária desse "novo ciclo".
"Não tenho mandato para dar conselhos à oposição, mas é preciso tomar cuidado", provoca o ministro, que deve deixar o governo em março de 2010 para concorrer a uma vaga na Câmara dos Deputados.
Qual o impacto da escolha do Brasil para sediar a Olimpíada de 2016 na campanha para a sucessão do presidente Lula em 2010?
Foi uma grande vitória do País. Mostrou que o Brasil ocupa novo papel na cena internacional. Agora, a força do presidente Lula vai repercutir, com certeza, no processo eleitoral.
A Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016 serão vendidas na campanha do ano que vem como conquistas da era Lula. O sr. mesmo já disse que se trata de duas plataformas de promoção. Qual será o slogan dessa propaganda?
Não há propaganda. As conquistas falam por si sós e dispensam campanha específica, ao menos num primeiro momento. Haverá investimentos de curto prazo, que terão repercussão efetiva na política, até pelo impacto na economia. Tudo isso eleva a autoestima do brasileiro. Outro dia, um homem me abordou e disse: "Quando vi o resultado da Olimpíada, eu me senti como se fosse uma pessoa de Primeiro Mundo". Essa conquista, muito identificada com o presidente Lula, pode ter efeito político na campanha de 2010.
A oposição já dá sinais de que teme o uso político da Olimpíada na campanha da ministra Dilma Rousseff. É para temer mesmo?
Essa é uma conquista do Brasil, mas é impossível separá-la da liderança do presidente. Negar isso é dar murro em ponta de faca. A mesma coisa aconteceu quando a oposição criticou o Bolsa-Família. Não tenho mandato para dar conselhos, mas é preciso tomar cuidado.
Então, como dizia Zagallo, a oposição vai "ter de engolir" o uso da Olimpíada na eleição?
Não diria o uso da Olimpíada. O que a oposição vai ter de engolir é a liderança internacional incontestável do presidente. Se a ministra Dilma Rousseff é a candidata de Lula e das forças que apoiam esse projeto, sua candidatura vai ser a principal beneficiária de todas as conquistas desse ciclo novo.
A expectativa do governo é que a candidatura de Dilma, paralisada, cresça a partir de agora. O sr. acredita que o presidente Lula consiga transferir mais votos para a ministra com esse apelo olímpico?
A Olimpíada se inscreve num conjunto de conquistas sociais e econômicas. Na minha opinião, a ministra Dilma tem um desempenho extraordinário nas pesquisas, a essa altura do campeonato, levando em conta que ela nunca disputou um cargo majoritário.
O sr. defende uma eleição plebiscitária entre o PT e o PSDB ou acha que o deputado Ciro Gomes (PSB) deve entrar nessa disputa?
Seria mais oportuno se conseguíssemos construir uma candidatura única que deixasse nítido para a população quem representa claramente a continuidade do governo Lula.
Muitas obras necessárias para a Olimpíada, como melhoria de aeroportos, estão previstas no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O sr. não teme que o Tribunal de Contas da União (TCU) mande suspender essas obras?
Tenho certeza de que os órgãos de controle são conscientes de sua responsabilidade no acompanhamento dos investimentos públicos e dos prazos a serem cumpridos. É preciso chegar num entendimento.
Que entendimento?
Os governos têm de prestar informação, executar as obras cumprindo rigorosamente tudo o que é previsto na lei e os órgãos de controle devem cumprir o seu papel. Eu acredito na razoabilidade da análise técnica do TCU.
O TCU já paralisou obras do PAC, alegando irregularidades. Quem fiscalizará a aplicação dos R$ 28,8 bilhões destinados à Olimpíada?
Dos R$ 28,8 bilhões do orçamento, um terço é de obras já contratadas, inclusive as do PAC. A reforma do Aeroporto do Galeão, no Rio, por exemplo, está incluída aí. Outro um terço é de obras projetadas - que serão antecipadas por causa dos jogos - e apenas uma terça parte será de investimentos adicionais. A fiscalização será feita nos mesmos moldes.
Mas como há uma campanha no ano que vem e a coordenadora do PAC é justamente a ministra Dilma, candidata do governo, posições do TCU podem causar problemas ao Planalto, não?
Não acredito que a eleição vá influenciar a conduta do TCU. A tensão aqui e acolá com o Executivo é por causa do ineditismo de um projeto ousado de investimento em infraestrutura. Há quanto tempo não vemos tantas obras em execução no Brasil?