Título: Não há vencedor nesta luta pelo poder, diz autor
Autor: Marin, Denise Chrispim
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/10/2009, Internacional, p. A15
Escritor afirma que nenhum dos lados do conflito é confiável
Honduras está mergulhada em uma negociação na qual nenhum dos lados parece querer ceder. O presidente Manuel Zelaya, deposto em 28 de junho por um golpe de Estado, não será reconduzido ao poder e as eleições presidenciais ocorrerão em 29 de novembro, com ou sem o reconhecimento da comunidade internacional.
A constatação é do escritor hondurenho César Indiano, autor de Los Hijos del Infortunio. Ele se baseia em uma observação crítica da história de seu país, na qual caudilhos se sucederam em guerras e rebeliões sangrentas, demagogos rurais se sobrepuseram aos urbanos e a vingança motivou episódios políticos.
"Não temos medo do isolamento", disse Indiano ao Estado. "Todo o mundo vê Honduras como uma esquina do mundo cheia de mendigos. O dinheiro de organismos internacionais e de países ricos só alimentou o parasitismo no país."
Em seu livro, Indiano descreve a atuação de Zelaya na presidência, entre janeiro de 2007 e junho de 2009, como a "história de um tonto que se tornou louco". Ele explicou que o presidente deposto vem de uma família de caudilhos, consolidou-se como líder do setor madeireiro e, no poder, envolveu-se em contendas com poderosos segmentos empresariais interessados nas áreas de telefonia e de distribuição de combustíveis.
Para enfrentá-los, uniu-se a sindicalistas, camponeses, intelectuais de esquerda e "entrou em delírio político". "Ele adotou a linguagem do socialismo do século 21 e aliou-se ao venezuelano Hugo Chávez e ao nicaraguense Daniel Ortega, que são figuras ingratas para os hondurenhos."
Para Indiano, Micheletti não aceitará o retorno de Zelaya por uma razão de sobrevivência. Como fruto de um país cuja história é marcada por vendetas entre facções políticas liberais e conservadoras, "Zelaya acabaria com todos os articuladores do golpe logo no primeiro dia de seu retorno".
Micheletti pode não ser um estadista, mas também não é um fantoche, na opinião do escritor. Ele sempre quis ser presidente e acabou nomeado pelo Congresso poucas horas antes de Zelaya ser deposto. No entanto, de político convencional e sem brilho, passou a autocrata e perdeu a noção de responsabilidade. "Em vez de atuar como uma ponte para o novo governo, ele preferiu enfrentar o mundo."