Título: Nenhum escândalo abala Berlusconi
Autor: Netto, Andrei
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/10/2009, Internacional, p. A17

Falta de oposição e apoio popular ajudam premiê italiano a se manter no governo, mesmo em meio a denúncias

A decisão do Tribunal Constitucional da Itália, que invalidou a imunidade penal do primeiro-ministro Silvio Berlusconi abrindo espaço para a retomada dos processos judiciais envolvendo o premiê, não abalará a solidez de seu governo. Não haverá renúncia nem antecipação das eleições - pelo menos até que surjam fatos novos. A análise é de Luigi Bonanate, cientista político da Universidade de Turim (Unito), ex-aluno e discípulo de Norberto Bobbio, e autor de mais de uma dezena de livros.

"Berlusconi conseguiu manter sua base de apoio intocável, o que é fundamental para sua estabilidade", diz o analista, referindo-se ao apoio da opinião pública italiana. "O verdadeiro problema da Itália é a falta de oposição." A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Estado.

A decisão do Tribunal Constitucional mexe de alguma forma com o futuro político ou com a estabilidade do governo de Berlusconi?

A decisão do tribunal não diz respeito apenas ao premiê, mas aos quatro mais importantes cargos do governo, que eram premiados pela imunidade. De qualquer forma, do ponto de vista prático, não muda nada. O que muda é que fica restabelecida a igualdade entre os cidadãos. O primeiro-ministro é um cidadão como os outros. A partir de agora, o juiz que teve de interromper os processos em curso contra Berlusconi poderá reabrir os dossiês, refazer seu trajeto e levá-lo à condenação, se for o caso. Se ele estiver em conflito com a lei, Berlusconi poderá até mesmo ser preso.

Mesmo com todo o apoio popular? Como o senhor avalia a reação da opinião pública italiana após a decisão do Tribunal Constitucional?

Como você sabe, a opinião pública italiana, imediatamente, se dividiu em duas, como sempre. Mas Berlusconi conseguiu manter sua base de apoio intocável, o que é fundamental para sua estabilidade. Seu discurso é claro: ele joga parte da culpa nos comunistas, nos opositores, na mídia, imputando-lhes o rótulo de verdadeiro problema da sociedade italiana. E esse discurso faz efeito, é convincente, porque Berlusconi fascina a sociedade italiana.

Por outro lado, os escândalos se sucedem, como os supostos encontros sexuais com prostitutas e menores. Nada disso mina sua base de apoio?

Os escândalos sexuais não tiveram nenhuma influência sobre a vida política e social italiana. Ninguém fica escandalizado pela vida social e política de Berlusconi. Pelo contrário, a opinião pública tem inveja e o admira. Para seus admiradores e eleitores, Berlusconi é uma pessoa de sucesso, rica, poderosa, que pode ter todas as mulheres que quiser. Mesmo se jovens de 18 anos estão envolvidas, no imaginário italiano isso significa que ele é desejado. O escândalo sexual faz crescer sua imagem. É uma lógica invertida.

Logo, Berlusconi e seu governo têm a confiança da sociedade italiana?

Sim. As sondagens e as eleições mostram que, não importa o que aconteça, Berlusconi e seu partido têm mais de 60% das intenções de voto e dos votos, quando há eleições. Nenhum escândalo abala seu respaldo. A questão é: o que ele fez para chegar a esse ponto? É quase inexplicável. Ele foi o discípulo de Benedetto Craxi (primeiro socialista a chegar ao posto de presidente do Conselho Italiano, entre 1983 e 1987). Mas Craxi era um verdadeiro político. Berlusconi, não. Ele era um industrial, um empreiteiro. Seu sucesso político é sem parâmetros, sem explicação. Diria que é algo mágico. É alguém que precisa ser respeitado por seus adversários, porque é um fenômeno.

Observando a Itália de fora, tem-se a impressão de que a oposição está acéfala. Há pouco falávamos em Romano Prodi, ex-presidente do Conselho, Walter Veltroni, prefeito de Roma. Por que não há ninguém?

A questão é exatamente essa: "Onde está a oposição?" Não sabemos. O Partido Democrático (PD), de centro-esquerda, o maior da oposição, está passando por eleições primárias para escolher seu novo secretário. Há três candidatos, dois fortes e um não. Pier Luigi Bersani, ex-comunista, é um nome forte. Mas todos estão se destruindo entre si. E a impressão transmitida pelo partido à sociedade é muito negativa. Todos se perguntam por que os líderes do PD se agridem de forma mútua. O interesse da opinião pública é nulo. E a verdadeira crise da Itália é a falta de uma oposição capaz de construir uma ideia de futuro, um projeto, uma alternativa de governo.

E não será essa sucessão de crises no governo Berlusconi capaz de levantar a oposição e a sociedade italiana?

Não. Em alguns dias todos terão esquecido a questão, a menos que Berlusconi cometa algum erro - o que acho improvável. Ele estará a salvo até o próximo escândalo. E, na realidade, talvez ele busque um novo escândalo que lhe ajude a superar os atuais. Tudo continuará como hoje, ou como ontem.

O seu discurso parece muito pessimista sobre o futuro imediato da Itália...

Sim, estou pessimista. Ou melhor, talvez esteja resignado com a nova realidade italiana.