Título: Nobel é peso para presidente
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Fonte: O Estado de São Paulo, 10/10/2009, Internacional, p. A16
Há dois tipos de Prêmios Nobel da Paz - os baseados em realizações e os baseados em aspirações. Barack Obama é o primeiro presidente americano no exercício do cargo a ganhar o prêmio por suas aspirações. Theodore Roosevelt ganhou em 1906 por seu papel no encerramento da guerra russo-japonesa, e Woodrow Wilson, em 1919, pela fundação da Liga das Nações e por ajudar na estruturação da paz internacional após a 1ª Guerra.
Um Nobel baseado em aspirações é atribuído para promover uma causa e, às vezes, falha espetacularmente. Um exemplo é o prêmio de 1994 concedido ao líder palestino Yasser Arafat por promover a paz no Oriente Médio. Poucos questionariam hoje a conclusão de que o prêmio foi concedido prematuramente, em especial porque as negociações de paz desmoronaram em um espasmo de violência que Arafat indiretamente - ou segundo alguns, diretamente - promoveu.
O prêmio de Obama, anunciado ontem, é um caso clássico de prêmio por aspirações. O comitê citou "seus extraordinários esforços para fortalecer a diplomacia internacional e a cooperação entre os povos" - um reconhecimento de que esses esforços ainda precisam mostrar resultados. Ele também mencionou o empenho de Obama para eliminar armas nucleares, um sonho que o ex-presidente Ronald Reagan também acalentou, mas não conseguiu realizar. Mesmo Obama admitiu que seu grandioso objetivo, provavelmente, não se dará durante sua presidência.
"Sejamos claros", disse Obama ontem em um discurso na Casa Branca após o anúncio do prêmio, "eu não o vejo como um reconhecimento de minhas próprias realizações, mas como uma afirmação da liderança americana em favor das aspirações de povos de todas as nações."
PROMESSAS
No entanto, Obama agora será julgado para sempre por esse novo parâmetro. E ele poderá descobrir que isso é oneroso, em especial porque precisa defender os interesses americanos - que não gozam da aprovação universal - na linha de frente de suas políticas.
Considere-se a longa lista de ações que Obama prometeu: fechar as instalações da prisão de Guantánamo em um ano; alcançar a paz no Oriente Médio; encerrar a guerra no Iraque e derrotar a Al-Qaeda no Afeganistão; impedir o Irã de obter uma arma nuclear; convencer a Coreia do Norte a desistir de seu programa atômico.
Muitas dessas promessas são desafios muito difíceis. Parece provável que Obama não conseguirá manter o prazo para fechar Guantánamo. O processo de paz no Oriente Médio está praticamente fora dos eixos. Obama precisou mudar de curso no mês passado depois que não conseguiu convencer Israel a aceitar um congelamento temporário dos assentamentos. Além disso, as conversações com a Coreia do Norte também estão estagnadas.
Obama tem na sua mesa uma proposta para aumentar em 40 mil ou mais o número de soldados americanos no Afeganistão, uma decisão que prolongaria a luta por muitos anos.
O Irã talvez seja o desafio mais complexo. Algum progresso rumo a uma solução negociada foi alcançado na semana passada, em Genebra, mas ainda é cedo para dizer que ele será sustentável. Os esforços diplomáticos podem fracassar, obrigando o presidente a estudar sanções que poderiam acarretar sofrimentos ao povo iraniano.
Em um último recurso, ele poderá encontrar em sua mesa uma proposta do Pentágono para um ataque militar a instalações nucleares iranianas. Ou receber um telefonema do primeiro-ministro israelense dizendo que um ataque do tipo é iminente. Um ataque ao Irã pode ser do interesse dos EUA, mas seria algo que um ganhador do Prêmio Nobel da Paz autorizaria?
*Glenn Kessler é comentarista político