Título: Metas estão longe do alcance
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Fonte: O Estado de São Paulo, 10/10/2009, Internacional, p. A16
A academia norueguesa não ousou acordar Barack Obama na manhã de ontem. Entretanto, tinha todas as razões para isso, pois acabava de conceder ao americano o Prêmio Nobel da Paz. Mas era muito cedo, 5 horas. Os acadêmicos são pessoas delicadas. Aguardaram uma hora antes de tirar Obama dos seus sonhos e mergulhá-lo em um outro: o Nobel da Paz.
E o mundo inteiro - quase inteiro - se alegrou. O planeta retomou as horas radiantes que viveu em novembro de 2008, com o anúncio da vitória de Obama. Na ocasião, do Cairo ao Rio de Janeiro, de Paris a Sidney, multidões alucinadas de felicidade achavam que o planeta entrava numa nova era.
Mas essa nova era ainda não chegou. O mundo continua do mesmo jeito que ontem: atormentado, triste, raivoso e amargo, sempre ocupado lambendo suas feridas e alimentando seus ódios. Nos EUA, uma oposição amarga envolve esse "negro", esse "intelectual", esse ingênuo. Ela desmonta, peça por peça, todos os dispositivos imaginados para reinventar a fraternidade e a justiça.
No exterior é ainda pior. Em todo o Oriente Médio, os homens continuam agarrados aos seus ódios como cães que não querem largar seu osso.
Israelenses e palestinos desmantelaram juntos os planos de paz de Obama. Hoje, como ontem, as pessoas se confrontam em Jerusalém e nos campos da Cisjordânia. No Afeganistão, camicases se matam para matar os outros. O Irã prepara sua bomba. A China oprime suas minorias e a Rússia os seus oponentes. O sangue corre em diversos países da África e da Ásia.
VOZ OBSTINADA
Diante de tantas calamidades, não resta muito das esperanças de novembro passado, a não ser essa voz obstinada, inflexível, que ressoa de tempos em tempos acima das dores do mundo. Essa voz que, em junho passado, no Cairo, dirigiu-se a árabes e muçulmanos para lhes dizer que "não temos de aceitar o mundo como ele é. Podemos refazê-lo da maneira como deveria ser".
Nessa frase repousam a grandeza e as dificuldades de Obama. A frase não é de um político. E se é, trata-se de uma política superior, quase fora do alcance. A política é a arte do real. Ela deseja melhorar a realidade, mas sabe que, de nenhuma maneira, pode mudar essa realidade.
Os poetas, filósofos e utopistas têm toda a liberdade para profetizar sobre o melhor dos mundos, uma sociedade de cristal ou um paraíso terrestre, mas o homem de Estado não pode se permitir tais fantasias.
Seu horizonte é aquele dos nossos dias. Ele pode pretender arranjar um pouco esse mundo real, mas não substitui-lo por outra realidade. Ora, na frase extraordinária de seu discurso do Cairo, Obama disse exatamente o contrário. "Não temos de aceitar o mundo tal como é. Podemos refazê-lo da maneira como deveria ser". Ou seja, o mundo não é bom. Vamos produzir um outro.
É assim que se explicam as dificuldades de Obama. Claro que não se pode falar de fracasso, mas é preciso constatar que os progressos são lentos, o que permite à horda de exasperados, egoístas e esclerosados recompor suas legiões, recarregar seus velhos fuzis e atirar à queima-roupa nesse sujeito que sonha mudar o mundo.
É nesse sentido que a escolha da academia da Noruega tem um alcance político. Ela avaliza essa espécie de revolução copernicana que Obama tenta introduzir na política: em vez de se submeter ao real, fazer da política um instrumento poderoso para construir um mundo como deveria ser.
As felicitações que se sucederam em todo o planeta são encorajadoras. Elas sugerem que a inocência e a inteligência de Obama têm aprovação dos povos e das elites políticas de todos os países livres. Mostra que a esperança que tomou conta do mundo há oito meses continua viva. Será isso suficiente para que a epopeia de Obama continue na sua formidável e apaixonante trajetória?