Título: Crise une países,mas divide hondurenhos
Autor: Simon, Roberto
Fonte: O Estado de São Paulo, 16/10/2009, Internacional, p. A18

Refúgio na embaixada do Brasil foi uma estratégia arriscada de Zelaya

Após mais de cem dias do início do impasse que se segue à deposição de Manuel Zelaya, a comunidade internacional mantém se unida contra o golpe de Estado,ao mesmo tempo que a sociedade hondurenha se divide entre críticos e apoiadores do regime de facto liderado por Roberto Micheletti.

Os opositores de Zelaya - dirigente quase elegeu por um partido de centro-direita e depois aderiu à "esfera de influência bolivariana", de Hugo Chávez - alegam que sua intenção de reformar a Constituição trazia, no fundo, o objetivo de abrir o caminho para que ele fosse reeleito. A atual Carta hondurenha prevê a perda do cargo a presidentes que tentem mudar a lei que permite um único mandato na presidência.

Zelaya, porém, afirma que propunha uma consulta popular não vinculante (sem efeito de lei) sobre a eleição de uma Assembleia Constituinte - que em nenhum momento mencionava a reeleição - para o mesmo dia da votação presidencial de 29 de novembro.

A Suprema Corte, dominada por opositores de Zelaya, declarou a consulta ilegal. Com base numa interpretação duvidosa da Carta e em rito sumário - sem dar a Zelaya nenhuma chance de defesa -, o tribunal sentenciou o presidente à perda do cargo.A expulsão de Zelaya pelo Exército, que na madrugada de 28 de junho o expatriou ainda de pijamas para a Costa Rica, causou uma forte reação internacional.

Nas semanas seguintes, em meio à mediação internacional e duas frustradas tentativas de retorno de Zelaya ao país, o governo de facto de Micheletti apostava na proximidade das eleições de novembro para consolidar o golpe.

No entanto,a arriscada estratégia de Zelaya de voltar clandestinamente a Honduras e buscar refúgio na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa virou o jogo. O presidente deposto envolveu Brasília na questão,mas apostou que o regime de Micheletti - que chegou a decretar um estado de sítio - não seria suficientemente ousado para invadir a embaixada.

Além disso,Zelaya ainda acredita que uma pressão mais efetiva dos EUA Por um acordo possa reconduzi-lo ao cargo.