Título: Inércia de EUA favorece Micheletti
Autor: Simon, Roberto
Fonte: O Estado de São Paulo, 17/10/2009, Internacional, p. A18

Apesar da posição oficial contrária ao golpe contra Zelaya, Washington hesita em pressionar governo de facto

Secundária no radar da política externa de Washington, Honduras foi capaz de expor ao longo do século 20 de maneira particular, muitas vezes quase caricatural, a ação dos EUA na América Latina. Desta vez, esse espelho hondurenho parece estar projetando uma imagem nova da grande potência hegemônica da região. O golpe contra o presidente Manuel Zelaya teria evidenciado o desinteresse, assim como um discurso contraditório dos EUA em relação aos países latino-americanos. Ao final, cresce a percepção de que a inércia de Washington está jogando a favor do regime de facto hondurenho.

Formalmente, os EUA reconhecem Zelaya como presidente e não mantêm contatos com o governo de facto de Roberto Micheletti. Em reação ao golpe, os EUA suspenderam uma ajuda a Honduras de US$ 17 milhões ao ano para programas militares e US$ 40 milhões a ministérios. Sobrou apenas o auxílio humanitário, de US$ 15 milhões.

Especula-se que o próximo passo seria incluir autoridades golpistas em uma lista de pessoas que não podem entrar em território americano. A ameaça poderia ter efeitos reais, já que boa parte da elite hondurenha viaja várias vezes ao ano aos EUA.

No entanto, em meio à crise, Washington passou a ter duas vozes. De um lado, Barack Obama subiu o tom com Micheletti. De outro, congressistas republicanos ligados ao movimento anticastrista passaram a boicotar ativamente a posição do Departamento de Estado, sob a justificativa de que Zelaya se aproximava do venezuelano Hugo Chávez. Em retaliação à política de Obama, a oposição deixou suspensa no Senado a confirmação do novo embaixador dos EUA no Brasil, Thomas Shannon, e do secretário para Assuntos Hemisféricos, Arturo Valenzuela. Duas semanas após o golpe, os congressistas republicanos Ileana Ros-Lehtinen e Jim DeMint foram a Honduras e se solidarizaram com Micheletti.

A principal questão agora é se Obama está disposto a manter sua palavra e não reconhecer um governo hondurenho eleito sob um regime de exceção, sem a volta de Zelaya.

A estratégia dos golpistas tem sido a de apostar na eleição de novembro, ganhando tempo para que um novo presidente jogue uma pá de cal no ostracismo internacional imposto a Honduras.

Michael Shifter, professor de estudos latino-americanos da Universidade Georgetown, levanta dúvidas sobre a viabilidade de os EUA continuarem a tratar Honduras como um regime pária, caso o país passe por eleições "justas e críveis". "É preciso haver um caminho para que Honduras consiga restabelecer a legitimidade democrática. Se Zelaya não for capaz de voltar ao poder, torna-se difícil imaginar outras opções a não ser as eleições", argumentou Shifter ao Estado.

Um eventual reconhecimento do governo hondurenho seria, na prática, a admissão do fracasso da posição adotada pelo Departamento de Estado desde 28 de junho, quando Zelaya foi deposto. Se os EUA seguirem esse caminho, crescem ainda as chances de haver uma cisão na Organização dos Estados Americanos (OEA), que até agora se manteve unida tanto na condenação do golpe quanto na mediação da crise.

Honduras foi suspensa da OEA semanas após o golpe. Fontes da organização que pediram anonimato afirmam que países como Brasil, Chile e Argentina não reconhecerão eleições sem a volta de Zelaya e estão dispostos a levar até o fim o gelo a Honduras. Se os EUA recuarem e reconhecerem o novo governo, um novo foco de tensão na instituição deve surgir.S