Título: Mercado vê efeito limitado e momentâneo no câmbio
Autor: Graner, Fabio
Fonte: O Estado de São Paulo, 20/10/2009, Economia, p. B3
Para economistas, taxação não desestimula investidores
A decisão do governo federal de tributar a entrada de capital estrangeiro no Brasil deverá ter efeito limitado e momentâneo no mercado de câmbio local. No médio e longo prazos, economistas acreditam que terá pouca influência na atração de capitais. "O governo parece não se dar conta de que a valorização do real faz parte de um movimento mundial contra a moeda americana. O dólar apanha de todo mundo lá fora", afirma o economista da MCM Consultores, José Júlio Senna, ex-diretor do Banco Central.
Na avaliação dele, a força do mercado mundial é muito superior a qualquer medida que o governo brasileiro tome para conter a entrada de capital externo. "Nos últimos 15 anos, foram poucos os momentos em que o real se descolou do resto do mundo. É preciso movimentos importantes e específicos para que o padrão do dólar no mundo não se reproduza aqui, como ocorreu em 2003, durante as eleições presidenciais. Portanto, não vejo sentido em afugentar o capital estrangeiro, que está ajudando a desenvolver o mercado de capitais."
O economista-chefe do Santander no Brasil, Alexandre Schwartsman, tem opinião semelhante. "Capital em bolsa não é pura especulação, há empresas que vão ao mercado oferecer parcela do capital para financiar investimentos." Para ele, a medida pode ter impacto num primeiro momento, e derrubar a bolsa, mas não deve ser efetiva a médio e longo prazos.
Schwartsman lembra que o IOF que vigorou no ano passado para fluxos de renda fixa não impediu o real de se valorizar. Ele acrescenta, porém, que, se não incluísse a bolsa, a medida do governo não teria nenhum impacto, porque a maioria dos recursos externos está indo para o mercado acionário. Em relação ao recente lançamento de ações do Santander no mercado brasileiro, o economista comentou: "Ainda bem que viemos antes dessa medida!".
"TIRO NO PÉ"
Para o sócio da Tendências Consultoria e especialista em câmbio, Nathan Blanche, a medida é um "tiro no pé". A expectativa de que a cobrança seria adotada e as notícias sobre o desempenho fiscal "relaxado" do governo já tinham feito os juros subirem no mercado futuro nos últimos 30 dias "compensando" os 2% da alíquota do IOF em renda fixa. "Isso é prejudicial em termos de atividade porque, com a alta de juros futuros, o PIB já não vai crescer 5% em 2009." Além disso, ele aponta que a bolsa brasileira já teve valorização de cerca de 140% desde o início do ano em dólar.
O especialista está preocupado com a base da política macroeconômica. "Se continuar com isso, é o fim da política de metas de inflação", disse, referindo-se à possibilidade de a taxação com o IOF vir a ser seguida por outras medidas de controle de capital. "É incompatível ter controle de capital e regime de metas de inflação. O regime de metas é compatível com o câmbio flutuante."
Segundo ele, foi muito ruim o anúncio feito pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, ter coincidido com a notícia de que o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, admitiu que o governo pode elevar a taxação do setor de mineração, inclusive sobre exportações. Embora a possibilidade de alta da tributação sobre exportação não esteja confirmada ainda e as discussões se darem em outro contexto, para Nathan Blanche, é uma medida que vai no mesmo sentido, que considera ser o de heterodoxia na economia.
Na opinião do professor da Fundação Getúlio Vargas, Willian Eid, a medida do governo foi muito "antipática" e deve espantar os investidores num primeiro momento. Mas o dinheiro continuará vindo para o Brasil, já que não há opções de investimentos no mundo desenvolvido.
Para ele, o principal objetivo do governo com a medida não é conter a valorização do real, mas controlar a inflação. "Com a entrada de dólar no País, você precisa de mais reais. Você aumenta o volume de moeda no País." RENÉE PEREIRA, FERNANDO DANTAS E ADRIANA CHIARINI