Título: Nós é que pedimos garantias aos vizinhos
Autor: Marin, Denise Chrispim
Fonte: O Estado de São Paulo, 20/10/2009, Internacional, p. A10

Supostos laços entre as Farc e os governos da Venezuela e do Equador ainda despertam preocupação em Bogotá

ENVIADA ESPECIAL, BOGOTÁ

Entrevista Gabriel Silva: ministro da Defesa da Colômbia

Isolada na América do Sul, a Colômbia ainda insiste em extrair garantias formais de que seus vizinhos - Equador e Venezuela, em especial - deixarão de dar abrigo às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). A posição foi expressa ao Estado pelo ministro da Defesa da Colômbia, Gabriel Silva, antes de o presidente Lula ter recebido ontem, em São Paulo, o presidente colombiano, Álvaro Uribe. Para Silva, não será possível a Bogotá fornecer garantias adicionais de que seu acordo com Washington não resultará em ações nos países vizinhos sem que os mesmos se comprometam com o combate ao narcotráfico e ao narcoterrorismo. "Assim como nos exigem garantias formais, queremos garantias formais dos outros", disse Silva.

Qual a situação das Farc hoje e como o senhor vê o ressurgimento de grupos paramilitares na Colômbia?

As Farc estão em debilidade crônica. Seus efetivos diminuíram, como resultado dos combates e da desmobilização, especialmente de seus comandos e de guerrilheiros com mais de sete anos na guerrilha. Além disso, o acesso das Farc ao narcotráfico, que é sua fonte de financiamento, é cada vez menor. Outro sintoma de debilidade está no fato de que três dos sete comandantes das Farc estão no exterior.

O sr. quer dizer no Equador ou na Venezuela? Como chegou a essa conclusão?

Estão fora da Colômbia. Temos informações.

Se as Farc estão debilitadas e o paramilitarismo não ressurgiu, por que a Colômbia precisa do acordo com os EUA?

Cada país tem a capacidade soberana de definir como conduz os temas internos. A Colômbia não expressou nenhuma opinião em relação às políticas militares e de defesa do Brasil. A Colômbia luta sozinha contra o narcotráfico. Nos anos 80 e 90, os países vizinhos nos davam tapinhas nas costas, solidarizavam-se. Mas, quando pedíamos extradições, capturas, cooperação nas áreas de inteligência e econômica, encontrávamos pouca colaboração real. Só um punhado de países nos deu apoio. Entre eles, os EUA. Estamos combatendo uma estrutura criminosa de caráter transnacional. Há 20 anos insistimos que nenhum país está livre disso. A Colômbia produzia 90% da cocaína do mundo nos anos 90. Hoje, produz 50%. Onde está sendo produzido o restante?

Na Bolívia?

É uma boa pergunta.

O sr. concorda que a Colômbia exportou o narcotráfico para a região?

Há um equívoco. Houve tolerância em outros países com o narcotráfico, que escapava do combate mais severo da Colômbia. Veja o que acontece no México, que vive um desafio nunca visto antes dos narcotraficantes.

Por que a Colômbia não dá a garantia formal, por escrito, à América do Sul de que seu acordo com os EUA não resultará em agressões externas?

O acordo tem como base o respeito à soberania dos demais países e da não intervenção nos assuntos internos. Além disso, está aberto ao país que queira participar dele. Mas o processo interno na Colômbia não está terminado. Não posso enviar cópias de um acordo que está sob avaliação do Conselho de Estado. Só então, o acordo será assinado.

Depois da assinatura, o texto será apresentado?

Depende da agenda da Unasul. Na declaração de Bariloche, os presidentes concordaram em discutir todos os acordos, inclusive a luta contra o narcotráfico, a não tolerância da presença de grupos armados e ilegais em outros países, a cooperação contra o tráfico de armas e a construção da confiança mútua. A Unasul não pode se concentrar apenas em um dos temas. É preciso haver simetria.

O acordo entre o Brasil e a França também o preocupa?

Nós respeitamos o direito dos países de definir sua estratégia de defesa e segurança e a cooperação internacional. No caso do Brasil, nunca mencionamos esse acordo. Respeitamos plenamente o que o Brasil está fazendo. A vantagem é que o Brasil e a Colômbia são democracias e serão seus eleitores que definirão se os atos de seus governos estão certos ou não. A Colômbia não tem uma política de compras de armas estratégicas, para a defesa externa, porque o povo nos deu um mandato para atuar na segurança interna. Não ameaçamos países dizendo que vamos bombardear suas capitais em cinco minutos.

Mas houve o bombardeio ao acampamento das Farc no Equador, no ano passado.

Por isso precisamos de um acordo de garantias e de compromissos, na Unasul, de que as duas coisas não acontecerão mais: nem as ações em territórios vizinhos nem centros de estratégia e de comando e controle do narcotráfico e do narcoterrorismo em outros países. COMENTÁRIOS