Título: A decisão do Copom e o seu futuro
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 23/10/2009, Economia, p. B2
A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a taxa Selic em 8,75% já era esperada e apenas a reação negativa das entidades de classe patronais surpreende, pois não se mobilizaram quando se sabia que ela seria mantida.
O comunicado divulgado no final dessa reunião se limitou a repetir o da reunião precedente, deixando claro que, se se verificar uma redução da margem de ociosidade na indústria, a posição das autoridades monetárias pode mudar. Já o mercado (pesquisa Focus) e os analistas apostam numa alta da Selic em 2010, sem serem unânimes sobre o período do ano.
Aparentemente, nem se justificaria um comentário da decisão das autoridades monetárias, não fosse o momento em que a reunião se realizou. Ela foi presidida por Henrique Meirelles logo depois que se filiou ao PMDB, partido que faz parte da coalizão governamental. Embora não tenha anunciado nada ainda sobre seus projetos políticos (vice-presidência, candidatura ao Senado ou um ministério no eventual futuro governo petista), alguns dos seus companheiros do Copom consideram que ele deveria ter-se demitido assim que se filiou a um partido da maioria, tendo perdido a sua liberdade em relação a um governo que está em plena campanha eleitoral.
Por essa razão, três membros do Comitê pretendem apresentar sua demissão, justamente os que são tidos como os mais ortodoxos.
Se se demitirem, caberá ao presidente Lula nomear três novos membros do Banco Central. Pode-se imaginar que Henrique Meirelles, caso se decida pela política, terá de apresentar sua demissão em março do próximo ano. De qualquer maneira, a maioria do Copom será designada por Lula em plena campanha eleitoral, durante a qual terá um grande peso político qualquer decisão do Comitê.
Assim, nada permite pensar que as futuras decisões do Copom serão estritamente técnicas. E isso é altamente preocupante diante das perspectivas da situação econômica.
Com efeito, tudo indica que a economia voltará a ter um forte crescimento em 2010, o que consumirá a margem de ociosidade da indústria. Por outro lado, o déficit público será crescente e o superávit primário, muito limitado.Teremos, pois, um quadro que exigiria um endurecimento da política monetária. Parece difícil que o Copom tenha a liberdade necessária para isso. Apostar numa alta da Selic nos parece arriscado.