Título: Associação ameaçada
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Fonte: O Estado de São Paulo, 24/10/2009, Notas e informações, p. A3
Com a decisão de suspender as licenças automáticas para a entrada no Brasil de alguns produtos muito sensíveis no comércio com a Argentina, o governo brasileiro começa a responder com mais eficácia às sucessivas medidas de proteção colocadas em prática pelo governo da presidente Cristina Kirchner para conter a entrada de produtos brasileiros em seu país.
De nada têm adiantado as concessões na área comercial e os esforços diplomáticos do governo brasileiro para preservar o que chama de parceria estratégica do Brasil com a Argentina, pois, diante de qualquer problema na balança comercial, o governo argentino vem adotando medidas protecionistas sem fazer nenhuma distinção entre seu parceiro estratégico e os demais países.
Desde quando, por causa da crise mundial, o governo Kirchner ergueu novas barreiras às importações, com o objetivo de "preservar a indústria nacional e os empregos dos argentinos", os produtos brasileiros vêm perdendo espaço rapidamente naquele mercado, enquanto cresce na mesma proporção a fatia ocupada por produtos asiáticos, especialmente chineses.
As importações da Argentina, como as de muitos outros países, estão diminuindo, mas diminuem muito mais suas compras de produtos brasileiros do que as de produtos chineses. O exemplo mais recente dessa consequência das restrições impostas pelo governo argentino é o mercado de calçados. Como mostrou reportagem do jornal Valor na terça-feira, o Brasil perdeu a liderança que detinha no mercado de calçados da Argentina. No ano passado, o Brasil produziu 52,9% dos calçados importados pela Argentina, enquanto os calçados asiáticos representaram 45,4%. De janeiro a agosto de 2009, a fatia do Brasil se reduziu para 47,4%, enquanto a dos asiáticos aumentou para 50,9%.
Entre 2007 e 2009, a fatia do produto brasileiro no mercado argentino encolheu 13 pontos porcentuais, enquanto a do calçado asiático aumentou 13,6 pontos. Para um funcionário do governo brasileiro, esta é "uma evidência clara" de que, por causa das medidas protecionistas da Argentina, está havendo um desvio de comércio, em prejuízo do produto brasileiro.
Este fenômeno, que beneficia os produtos chineses em detrimento dos brasileiros, vem sendo apontado pela indústria há meses. Recente estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) sobre os efeitos das medidas protecionistas da Argentina mostrou que, "no período de janeiro a abril de 2009, comparativamente ao mesmo período de 2008, o market share do Brasil no grupo de produtos atingidos por licenças não automáticas caiu de 42% para 31,5%, enquanto a China expandiu sua participação de 21,5% para 30,5%".
Em janeiro, a Argentina estendeu para os pneumáticos a suspensão da licença automática de importação, que até então afetava 58 produtos. A restrição, hoje, atinge mais de 260 produtos. Entre os produtos brasileiros que dependem de licença não automática para entrar na Argentina, além dos calçados, estão cutelaria, móveis, máquinas debulhadoras, eletrodomésticos de linha branca e têxteis.
Em resposta, o governo brasileiro suspendeu, desde o dia 14 de outubro, as licenças automáticas de importação para farinha de trigo, pré-mistura de trigo, vinhos, alho, azeite, azeitonas, alguns outros itens alimentares e rações animais provenientes da Argentina.
Se pelo menos estimulasse a ampliação da indústria local, dando-lhe mais competitividade - como o governo Kirchner alega ser seu objetivo -, e fosse temporário, o protecionismo argentino seria até compreensível. Mas não há sinais de investimentos produtivos.
Desde o início da década, como lembrou a economista Sandra Polónia Rios, diretora do Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento, em artigo publicado pelo Estado na terça-feira, Brasil e Argentina "seguem caminhos opostos em sua estratégia de inserção internacional". O Brasil aumenta sua integração à economia global e ganha projeção nos foros econômicos mundiais, enquanto a Argentina adota atitudes defensivas e se isola na tentativa de se industrializar.
Não pode sobreviver por muito tempo uma associação em que os sócios caminham em sentidos opostos, mesmo que um deles, o Brasil, tenha sido tão tolerante com o outro por tanto tempo.