Título: Um povo que faz questão de ser diferente dos argentinos
Autor: Palacios, Ariel
Fonte: O Estado de São Paulo, 25/10/2009, Internacional, p. A16

Um passeio de poucos minutos por Montevidéu dá a impressão de que não se está numa capital latino-americana. Apesar de algumas semelhanças, a verdade é que a rambla (insólita adaptação da avenida de Barcelona), em Pocitos, não é como a Praia de Copacabana. E nem Punta del Este se parece com Mar del Plata.

Uma mistura de edifícios art déco com blocos de pedra dos anos 1960 nos lembra da deterioração de uma urbe que se converteu, ao longo do século 20, em foco de sucção do restante do Estado que começou como um tampão entre os gigantes Brasil e Argentina.

Por mais que se queixem os uruguaios, a capital parece limpa e dotada de uma dimensão humana ausente do restante do continente. Não se detectam ruídos incômodos, exceção feita às trombetas e tambores que atraem a atenção dos eleitores.

No entanto, até nesse exercício democrático os uruguaios parecem querer se distanciar de seus vizinhos de Rio da Prata. A aspereza da política argentina está ausente dos comícios uruguaios. Como o Canadá, que se autodefine como não sendo os EUA, o Uruguai se preza por não ser a Argentina. Maradona e suas obscenidades parecem estranhos em Montevidéu.

É por isso que os políticos que mais parecem aspirantes a prefeito de um município provinciano, principalmente o líder da Frente Ampla, o ex-guerrilheiro José Mujica, que tem 45% das intenções de voto. De cabeleira encanecida e bigode de estancieiro, o aspirante a sucessor de Tabaré Vázquez pareceria mais à vontade recebendo amigos com sua mulher, Lucía Topolansky, para tomar mate em sua casa rural.

Seu desafiante é o ex-presidente Luis Alberto Lacalle, do Partido Nacional, o Branco, veterano da política uruguaia e dotado de boas conexões internacionais com conservadores nas Américas e na Europa. Inimigo da institucionalização do Mercosul com perfil supranacional, ele prefere que o Uruguai siga o rumo do desenvolvimento liberal, seguro e aberto. Com apenas 30% das intenções de voto, porém, não há como vencer no primeiro turno.

Moderadamente à esquerda estão os colorados, partido reciclado, herdeiro da mística de José Battle, artífice do Estado de bem-estar. Seu líder é Pedro Bordaberry, filho do ex-presidente Juan María Bordaberry, eleito em 1971, que governou por decreto entre 1973 e 1976, defenestrado pelos militares.

Bordaberry será o perdedor - tem 11% das intenções de voto -, mas pode guardar a chave da eleição no segundo turno, marcado para 29 de novembro. Brancos e colorados são acusados pela Frente Ampla de serem ramos do mesmo conservadorismo. Mas somando apoios, a matemática pode entregar a presidência a Lacalle se ele convencer indecisos e colorados resignados, contrários à ascensão de um ex-guerrilheiros ao poder e ao prosseguimento das políticas de Tabaré.

Seja como for, paira sobre a campanha uma melhora na economia e alguns indicadores sociais que favorecem a vitória da esquerda. Em cinco anos, a economia cresceu 30%. O desemprego, que no início da década chegava aos 20%, está na casa dos 7%. A inflação encontra-se abaixo dos 10% e o salário real teve aumento de 20%.

A pobreza, que afetava cerca de 30% da população, cinco anos atrás, agora foi reduzida para 20%. A proporção de indivíduos vivendo na miséria completa, antes 3,8%, encontra-se agora em 1,8%. Ignora-se o impacto desses dados e de outro segundo turno: a repescagem para a Copa do Mundo após a derrota para a Argentina. Se perderem da Costa Rica, porém, os uruguaios não devem se envergonhar das obscenidades de Maradona. Até nisso eles se distinguem dos argentinos.

*Joaquín Roy, espanhol, é diretor do Centro da União Europeia da Universidade de Miami