Título: Bolsa tem a maior queda desde março
Autor: Modé, Leandro
Fonte: O Estado de São Paulo, 29/10/2009, Economia, p. B1

Investidores atribuem a perda de 4,75% a dados ruins dos EUA e à cobrança de IOF sobre aplicações de estrangeiros

Há algum tempo, analistas de mercado vêm alertando que a bolsa brasileira passaria por uma realização de lucros - quando investidores vendem suas ações após um período de alta e, assim, embolsam os ganhos acumulados. Ao que tudo indica, o momento chegou.

O Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa) teve ontem a queda mais profunda desde março, quando o mundo ainda vivia o pior da crise mundial. O indicador perdeu 4,75% e fechou aos 60.162 pontos. Na semana, a queda chega a 7,52% e, no mês, a 2,20%. No ano, porém, o Ibovespa ainda se valoriza 60,2%. O dólar subiu ontem 0,92%, para R$ 1,755.

Segundo especialistas, dois fatores explicam o mau humor. O primeiro deles é o ambiente externo. O segundo, a decisão do governo de taxar com alíquota de 2% de IOF o investimento estrangeiro em renda fixa e variável no País. "Desde o início da semana, os investidores do mundo estão fugindo um pouco do risco por causa da percepção de que os resultados das empresas não justificam os preços das ações", disse o estrategista da Infinity Asset Management George Sanders.

Nos EUA, o Índice Dow Jones baixou 1,21% e a bolsa eletrônica Nasdaq, 2,67%. Em Londres, o Índice FTSE deslizou 2,32%. Na Coreia, o Índice Kospi caiu 2,4%. Especificamente ontem, ao menos três fatores azedaram o humor.

As vendas de imóveis novos nos Estados Unidos caíram 3,6% em setembro, ante expectativa do mercado de alta de 2,6%. As encomendas de bens duráveis no país avançaram 1% também em setembro, mas a estimativa era de expansão de 1,5%. Por fim, lembrou Dany Rappaport, sócio da Investport, o banco Goldman Sachs alterou para baixo a projeção para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA no terceiro trimestre.

A instituição espera agora expansão de 2,7% para o indicador (que sai hoje), contra 3% antes. Embora represente o passado, o número do PIB é muito importante para a formação de expectativas do mercado.

Por isso, Rappaport avalia que, caso o indicador surpreenda para cima, "esse pessimismo dos últimos dias pode ser revertido". "Por ora, eu não consigo ser pessimista", afirmou.

Os analistas observaram que, nesse ambiente externo tenso, a cobrança de IOF em aplicações de estrangeiros na bolsa funcionou como um catalisador da queda - e ajuda a explicar por que a bolsa caiu mais aqui do que no resto do mundo ontem. A outra explicação para o tombo maior no Brasil é tradicional: o mercado, aqui, é muito líquido, o que facilita tanto a saída quanto a entrada de estrangeiros.

"Se o ministro (da Fazenda, Guido) Mantega queria estourar uma suposta bolha na bolsa, ele conseguiu", ironizou Sanders. "Os investidores estão preocupados com a possibilidade de que o governo venha com mais medidas para o câmbio", acrescentou o economista-chefe da Corretora Souza Barros, Clodoir Vieira. "Ontem (terça-feira), circularam rumores no mercado sobre uma quarentena para capitais estrangeiros e o governo não negou. Podemos ver nos próximos dias uma pressão de venda pelos estrangeiros para forçar o governo a rever a medida. É o tipo de queda de braço que já vimos no passado."

Desde que a cobrança de IOF começou a valer, na terça-feira passada, os investidores estrangeiros já tiraram mais de R$ 2 bilhões da bolsa brasileira. "É um volume expressivo", comentou Vieira.

Os especialistas ressaltam que, ao menos até o momento, as perspectivas para o Brasil - e, por tabela, para o mercado financeiro do País - continuam positivas. "O que estamos vendo não é uma mudança de rumo, mas uma correção", afirmou Sanders. "A longo prazo, o expectativa é otimista", completou Vieira.