Título: Bancos buscam proteção em títulos
Autor: Fernandes, Adriana
Fonte: O Estado de São Paulo, 28/10/2009, Economia, p. B3

Aplicações de curto prazo chegam a R$ 495,5 bi e crédito cresce 1,5%

Enquanto a concessão de crédito cresceu 1,5% em setembro, os bancos no Brasil preferiram aplicar o maior volume de dinheiro disponível em títulos públicos de curtíssimo prazo oferecidos pelo Banco Central. Chamadas de operação do mercado aberto, essas aplicações bateram recorde no mês passado atingindo R$ 429,7 bilhões e, até 16 de outubro, já haviam chegado a R$ 495,58 bilhões.

O aumento dessas operações é decorrente das compras maciças de dólares feitas pelo BC no mercado financeiro. A Agência Estado apurou que esse crescimento a níveis recordes tem alimentado ainda os rumores de que o BC vai elevar os depósitos compulsórios para diminuir a liquidez no mercado.

As operações de mercado aberto são feitas para enxugar o excesso de liquidez. Aos bancos, elas oferecem rendimento elevado e mais seguro do que o ganho com a concessão de crédito. Essas operações vêm se expandindo desde 2008, quando o governo liberou parcela dos depósitos compulsórios que os bancos têm de deixar no BC para irrigar o mercado de crédito, que havia se retraído com a crise. E ganharam força nos últimos meses, depois que o fluxo de dólares aumentou para o Brasil. A enxurrada de moeda estrangeira obrigou o BC a aumentar as compras de dólares no mercado interno para impedir uma volatilidade maior da taxa de câmbio.

O volume dessas operações, que encarecem e aumentam o endividamento do governo federal, já ultrapassou o saldo das reservas internacionais - hoje em US$ 232 bilhões. Em setembro, a dívida interna mobiliária federal somou R$ 1,385 trilhão. Com as operações de venda de títulos (chamadas de compromissadas), a dívida sobe para R$ 1,815 trilhão.

"Em vez de emprestar ao setor produtivo, os bancos estão preferindo as operações altamente rentáveis do mercado aberto sem risco nenhum", disse Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do BC e economista-chefe da Confederação Nacional de Comércio. Para ele, esse é um grande problema que os BCs do mundo enfrentam após o agravamento da crise. Em setembro, as operações compromissadas com prazo acima de um mês cresceram 20%, para R$ 369,5 bilhões.

Com prazo até um mês, atingiram R$ 60,18 bilhões, com crescimento de 3,31% em relação a agosto.