Título: Sem meta para Copenhague
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Fonte: O Estado de São Paulo, 05/11/2009, Notas e informações, p. A3
A incapacidade do presidente Lula de definir uma proposta clara e "credível", como diria a ministra Dilma Rousseff, para levar à Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a se realizar em dezembro em Copenhague, ficou mais uma vez escancarada com o fracasso da reunião de anteontem do presidente com os ministros envolvidos mais de perto com o tema (além da chefe da Casa Civil, os titulares da Agricultura, Ciência e Tecnologia, Desenvolvimento, Meio Ambiente, Minas e Energia e Itamaraty). A reunião fracassou porque, com a sua conhecida aversão a entrar em bola dividida, para recorrer a uma metáfora decerto a seu gosto, o presidente evitou dar a palavra final que enquadraria as posições em conflito na sua equipe.
Além disso, desenvolvimentista à moda antiga, ele tende a se alinhar com os auxiliares que rejeitam a ideia do ministro ambiental Carlos Minc, para quem o Brasil deveria não só se comprometer em Copenhague com uma meta quantitativa de corte das emissões de carbono, responsáveis pelo aquecimento global, mas também fixar essa meta no ousado patamar de 40% do total previsto até 2020, supondo uma taxa média anual de crescimento da economia da ordem de 5%. Mas Lula também precisa conciliar seu conhecido pouco-caso pelas questões ecológicas com o interesse em manter luzidia a sua imagem no exterior, onde o Brasil é visto como um dos vilões do clima. (O País é o quarto maior emissor dos chamados gases estufa.)
Por último, mas não menos importante na escala das preocupações do presidente, está o que ele nunca perde de vista - nem mesmo quando o que está em jogo é a conduta do governo diante de uma questão que diz respeito como nenhuma outra ao futuro da humanidade, como é o caso das consequências devastadoras do aquecimento global. Trata-se, é claro, da eleição de 2010. Lula designou a sua pré-candidata Dilma Rousseff para chefiar a delegação brasileira à conferência da ONU, convocada na esperança de se chegar a um acordo mundial sobre o combate ao efeito estufa, depois do melancólico definhamento do Protocolo de Kyoto. A ministra é como o seu chefe e patrono: entende pouco e simpatiza ainda menos com a causa verde.
"A sinalização que ela dá nessa discussão (sobre a linha a seguir na conferência) é clara", avalia o ativista Paulo Adário, do Greenpeace: "Eu não estou interessada nessa discussão ambiental." Mas Lula tem absoluto interesse em aproveitar qualquer oportunidade - e Copenhague não é propriamente uma oportunidade qualquer - para mantê-la sob os holofotes. Evidentemente, a luz deve ser favorável: Dilma não poderia aparecer num evento dessa magnitude de mãos abanando, por assim dizer. Se o presidente não quer adotar uma meta física de redução das emissões, ou porque isso limitaria a expansão da economia, ou, como se especula, para não melindrar os governos dos quais espera apoio para uma vaga no Conselho de Segurança, a ministra tampouco pode ser a porta-estandarte de uma frustração.
Se nada mudar naquela que deverá ser a última reunião ministerial sobre o assunto, no fim da próxima semana, Dilma anunciará na cúpula que o Brasil, em vez de esperar que o mundo lhe diga o que fazer, resolveu empreender um "esforço voluntário" contra o aquecimento. O seu núcleo será a promessa apresentada por Lula na abertura da Assembleia-Geral da ONU, em setembro último: reduzir em 80%, até 2020, o desmatamento da Amazônia - a principal fonte das emissões brasileiras de gás carbônico. Desse modo, ao que se alega, o País já reduziria em 20% as emissões que ocorreriam no período caso nada se fizesse para contê-las. Outras iniciativas se dariam no campo (recuperação de cerca de 50 milhões de hectares de áreas degradadas) e na produção de "aço verde" (com carvão vegetal derivado do reflorestamento).
Falta combinar com o público externo. Para os céticos, nada disso afetará substancialmente a tendência de aumento das emissões no setor agropecuário e, sobretudo, das resultantes da queima de combustíveis fósseis para a geração de energia. E o Brasil terá perdido uma ocasião única de "mostrar liderança" e "fazer avançar" a mobilização da comunidade internacional pela redução dos danos do efeito estufa, dizem os ambientalistas. De seu lado, embora preterido por Lula em favor de Dilma, o ministro Carlos Minc profetiza que "o Brasil vai salvar Copenhague". Não é "credível".