Título: Faltou investir mais
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Fonte: O Estado de São Paulo, 05/11/2009, Notas e informações, p. A3

O Brasil manteve um bom ritmo de crescimento econômico entre 2003 e 2008, até o agravamento da crise internacional, apesar de nunca ter chegado a investir 20% de seu PIB nesse período. Além do mais, o investimento produtivo dependeu quase exclusivamente das empresas, porque o setor governamental teve um desempenho abaixo de medíocre na realização de obras. A revisão das contas de nacionais de 2007, divulgada ontem pelo IBGE, oferece mais uma oportunidade para uma reavaliação dos grandes números da economia do País nos últimos sete anos.

A produção bruta da economia brasileira, de acordo com os novos números, cresceu 6,1% em 2007. Foi a maior expansão desde 1986, ano do Plano Cruzado, quando o PIB aumentou 7,5%. Na estimativa anterior, o IBGE havia apontado um crescimento de 5,7% em 2007. O dinamismo se manteve durante a maior parte do ano passado, mas foi interrompido pela crise financeira global. O IBGE deverá provavelmente mudar também as estatísticas de 2008, por causa da alteração dos dados do ano anterior. Pelo quadro conhecido até agora, o PIB aumentou 6,3% nos quatro trimestres encerrados em setembro do ano passado.

Em 2008, pelos dados atualmente disponíveis, o Brasil investiu 19% do PIB em máquinas, equipamentos e instalações - incluídas fábricas, habitações, edifícios comerciais e de serviços e também obras de infraestrutura. Nos anos anteriores, segundo o IBGE, o investimento oscilou entre o mínimo de 15,3% em 2003 e o máximo de 17,4% do PIB em 2007. Mesmo com os 19% do ano passado - número ainda sujeito a revisão - a parcela da renda nacional investida no aumento e na modernização da capacidade produtiva é muito pequena, especialmente quando comparada com a das economias mais dinâmicas do Oriente. Mas é pequena, também, quando confrontada com os números brasileiros dos anos 70, quando empresas e governo chegaram a investir mais de 24% do PIB. Só se voltará a esse padrão se o setor público reduzir seu desperdício.

O crescimento econômico não depende, no entanto, apenas da ampliação material do parque de máquinas e de instalações. O aumento da produção é determinado também, e em proporção considerável, pela mudança tecnológica. Máquinas e processos podem tornar-se mais eficientes, proporcionando maior volume de produção por unidade de investimento. Esse tipo de evolução certamente vem ocorrendo no Brasil, não só na indústria e nos serviços financeiros e de comunicações, mas também - e há mais tempo - na agropecuária. Mas esse tipo de modernização só se mantém com aplicação crescente de recursos em pesquisa e em formação de mão de obra. Também nessas áreas o desempenho tem sido menos que satisfatório.

Mas esse retrospecto aponta outros fatores positivos, além do razoável ritmo de crescimento econômico mantido por vários anos. O aumento da participação da renda dos empregados no total do valor da produção é um avanço indiscutível. Essa participação - incluídos salários e contribuições sociais - passou de 39,65% em 2003 para 41,3% em 2007. Considerados só os salários, a fatia aumentou de 31,1% para 32,7%.

Essa expansão foi propiciada não só pela criação de empregos e pelo crescimento do salário nominal, mas também pela política anti-inflacionária. Com inflação relativamente baixa, o poder de compra dos trabalhadores se mantém e até aumenta mais facilmente. Este pormenor é frequentemente esquecido quando se discute a distribuição de renda.

A expansão dos salários criou condições para as famílias consumirem mais e, portanto, para a ampliação do mercado interno. No entanto, o chamado consumo da administração pública (a despesa efetuada com a prestação de serviços) cresceu mais velozmente que o consumo privado. O governo, em todos os níveis, tem sido muito mais eficiente na ampliação dos gastos de custeio - em geral com pouco ou nenhum benefício para os contribuintes - do que na elevação dos investimentos. O aumento do custeio seria justificável se resultasse em mais e melhores serviços à sociedade, mas, para isso, os governantes deveriam preocupar-se mais com a qualidade da administração. Essa não tem sido, especialmente na área federal, uma característica dominante.