Título: Lula festeja resolução de crise em Honduras
Autor: Galeno, Renato; Franco, Bernardo Mello
Fonte: O Estado de São Paulo, 31/10/2009, O Mundo, p. 27

Possível fim do impasse dá início a debate entre especialistas sobre a postura da diplomacia brasileira no episódio

Enviado especial

EL TIGRE, Venezuela, e RIO. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem que o Brasil participou de todo o processo que resultou no acordo em Honduras.

Ele demonstrou confiança de que o que foi acertado será cumprido e ainda alfinetou o presidente interino do país: ¿ O que aconteceu na verdade foi que (Roberto) Micheletti descobriu que não é possível governar contra a vontade da maioria.

Lula lembrou que Zelaya sempre foi tratado como hóspede na embaixada brasileira. Disse que o governo brasileiro agiu corretamente ao tomar essa posição e que qualquer país democrático faria o mesmo.

¿ Ele (Zelaya) estava na nossa casa e não ia deixar ninguém tirá-lo de lá. O Brasil fez muito bem ao tomar essa posição, em que prevaleceu a verdade.

Em resposta aos críticos dessa posição brasileira, afirmou: ¿ Nem Pinochet teve coragem de fazer qualquer coisa contra a embaixada de Cuba, onde ficaram todos os exilados.

Tomar posição pró-Zelaya pode ter sido erro O anúncio do fim do impasse também iniciou um vigoroso debate entre especialistas de política externa sobre a postura brasileira durante a crise.

No Brasil, o aparente fim do impasse se tornou o começo da análise de uma das mais ousadas iniciativas diplomáticas brasileiras nas últimas décadas.

Roberto Abdenur, embaixador e ex-secretário-geral do Itamaraty e membro do conselho curador do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), considera que o Brasil errou durante a evolução dos acontecimentos.

¿ A postura do Brasil foi correta na condenação à maneira golpista com a qual Zelaya foi retirado do poder, e também na insistência para a manutenção da democracia. Houve, porém, uma postura desequilibrada diante dos antecedentes da destituição.

Houve uma tentativa de realizar um referendo que violava a Constituição, que desde 1982 mantinha a estabilidade do país ¿ analisa Abdenur. ¿ Faltou, portanto, equilíbrio ao se lidar com uma atitude golpista e uma postura inqualificada próZelaya. É preciso cuidado quando há forças significativas dos dois lados.

O tema central na análise de todos foi a hospedagem de Zelaya na embaixada brasileira, algo sem paralelo na história da política externa brasileira, e talvez até mundial: um presidente deposto que volte para seu país, mas que se refugie dentro de uma embaixada estrangeira. Abdenur, ao descrever o que chamou de ¿tomada de assalto¿ da representação diplomática, considerou o episódio uma ¿situação vexatória¿ para o Brasil.

Um dos mais críticos foi o ex-embaixador brasileiro nos Estados Unidos, Rubens Antônio Barbosa, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP.

¿ Não haveria problemas se a presença do presidente deposto tivesse fins humanitários. Ao permitir que ele usasse e embaixada como plataforma política de Zelaya, feriu o princípio da não interferência.

Abrigo para Zelaya forçou início de negociações Diversos outros especialistas, no entanto, discordam. A cientista política e professora da PUC-RJ Maria Celina Soares D¿Araujo afirma ter observado o episódio inicialmente com ceticismo, mas que sua visão foi mudando com o desenrolar dos acontecimentos.

¿ Num primeiro momento, pareceu-me que o Brasil tinha entrado numa enrascada diplomática.

Mas, com o passar do tempo, a iniciativa acabou por forçar uma negociação, criar um fato político. A ação do Brasil fez a comunidade internacional agir.

Tullo Vigevani, professor da Unesp e do IRI-USP, concorda.

¿ A presença do presidente deposto (na embaixada) obrigou que houvesse uma negociação ¿ afirma Vigevani. ¿ Sem avaliar a correção jurídica, o fato é que isso acelerou o processo.

A mesma lógica foi defendida ontem pelo chanceler, Celso Amorim: ¿ Esse acordo não existiria se o Brasil não tivesse aberto as portas para Zelaya. Teria sido muito triste se nós não tivéssemos sido capazes de fazer isso.

No debate sobre os efeitos da postura brasileira sobre a sua imagem internacional também há avaliações diametralmente opostas. Celina D¿Araujo, por exemplo, diz que o Brasil, num primeiro momento, ¿ficou bem na foto¿, alertando que ainda é cedo para analisar e também que há ¿questões nebulosas¿, como o que realmente aconteceu para Zelaya surgir na embaixada brasileira. Já Abdenur afirma exatamente o oposto.

¿ Não digo que houve uma perda irreparável, não foi uma crise de repercussão global. Mas o Brasil não ficou bem na foto.

Discordando da avaliação do presidente Lula, Celina e Abdenur concordam que a resolução da crise deve ser creditada aos EUA, não ao Brasil. Celina ressalta que isso ocorre até por questões práticas: cerca de 80% da economia de Honduras dependem dos EUA, fazendo com que Washington fosse, desde sempre, o ator que poderia ¿pressionar em termos políticos, econômicos, diplomáticos¿.

Abdenur, no entanto, é bem mais ácido.

¿ O que acabou ocorrendo é que os Estados Unidos é que foram os mediadores.

Abdenur e Barbosa também consideram que a diplomacia brasileira se deixou levar por questões ideológicas.

¿ A América Central não é uma área de influência brasileira.

Houve um superdimensionamento deste poder de influência.

Naquela região, a capacidade brasileira é reduzida ¿ disse Rubens Barbosa. ¿ Outra lição. A política externa não deve ter caráter político partidário. Deve se basear em interesses nacionais. Não tínhamos nada que nos meter lá. Isso foi feito por proximidade com Chávez, que colocou Zelaya na porta da embaixada, e o Brasil aceitou. O Brasil não tinha qualquer interesse nacional lá. Foi ideológico.

Críticas dentro do Conselho de Segurança da ONU O papel de Chávez é reconhecido por Celina D¿Araujo, mas ela lembra que pouco depois de sua chegada à Embaixada do Brasil, Zelaya parou de mencionar o líder venezuelano.

Enquanto o Ministério das Relações Exteriores brasileira frisou várias vezes que, além da Organização dos Estados Americanos (OEA), o Conselho de Segurança da ONU apoiou o Brasil, Abdenur afirma que esta última afirmação não retrata exatamente o que ocorreu.

¿ Houve um recurso açodado ao Conselho de Segurança.

Houve até a crítica da representante dos EUA no Conselho, que ocupava a presidência no momento.

O órgão existe para avaliar questões de paz e resolução de conflitos. Isso é ruim para quem quer entrar no Conselho de Segurança ¿ diz Abdenur, que ressalta defender a entrada do Brasil no Conselho