Título: Uma dieta global equilibrada
Autor: Mello, Patrícia Campos
Fonte: O Estado de São Paulo, 01/11/2009, Economia, p. B4

Desequilíbrios globais - grosso modo, a diferente ênfase que as principais economias do mundo aplicam às poupanças, gastos e dívidas - são um termo muito empregado, mas um problema pouco abordado.

Muito antes do início da crise financeira, líderes mundiais prometeram cuidar dessa desconexão. Em reunião do Fundo Monetário Internacional realizada em 2007, por exemplo, representantes dos Estados Unidos e da União Europeia concordaram em mudar incentivos econômicos para encorajar mais poupança e menos gasto; funcionários dos governos de China, Japão e Alemanha, por sua vez, prometeram tomar medidas para encorajar mais gastos. Ao final, pouco foi feito, e esses desequilíbrios facilitaram a descida global para o abismo econômico.

Pode ser que isso não seja evidente na observação dos números atuais; de fato, a crise contribuiu para um significativo estreitamento dos desequilíbrios econômicos globais. Consumidores nos chamados "países deficitários" - como EUA, Grã-Bretanha, Espanha e os países do Leste Europeu que apresentam imensos déficits comerciais - estão poupando mais agora que a crise expôs a perigosa extensão de seu endividamento. Enquanto isso, na China e em outras grandes economias exportadoras, gastos no estímulo fiscal e outras medidas incentivaram maior consumo doméstico.

A redução do déficit em conta corrente dos EUA - mais amplo índice do comércio de bens e serviços - é particularmente notável e serve de exemplo. Essa redução pode ser observada também nas economias menos robustas. Muitas das economias emergentes do Leste Europeu financiaram com facilidade imensos déficits nos anos de prosperidade. Agora elas se descobrem reduzindo o consumo particular diante da escassez do crédito.

Nos casos mais desesperadores, como Ucrânia e Casaquistão, foi necessário desvalorizar a moeda, o que aumentou o custo das importações. Outros, em especial os países do Leste Europeu que aguardam entrar na UE, mantiveram fixas as taxas de câmbio. Assim, só há espaço para ajustes por uma forte redução na demanda doméstica.

Nunca é fácil mudar hábitos - seja a tendência ao excesso de disciplina ou o excessivo relaxamento com o dinheiro. É poderosa a tentação de apontar para as tendências atuais e argumentar que o reequilíbrio está ocorrendo. Esse seria um grande erro.

Todos os indícios sugerem que esse reequilíbrio é temporário - resultado de medidas reativas adotadas entre os exportadores e de uma redução no padrão de vida entre os mais abastados.

A China é um caso a ser estudado. Minha colega, Rachel Ziemba, defende uma projeção segundo a qual o superávit em conta corrente chinês deve provavelmente ser reduzido para US$ 350-370 bilhões, dependendo da trajetória das importações, um decréscimo em relação aos US$ 420 bilhões em 2008. O superávit comercial chinês ficou pouco abaixo dos US$ 100 bilhões no primeiro semestre de 2009. Espera-se superávit de cerca de US$ 30 bilhões no terceiro trimestre deste ano, valor muito abaixo dos níveis observados em 2008. Um crescimento nos gastos domésticos, e não na poupança, pode reduzir ainda mais o superávit. Mas, com a relutância da China em permitir a desvalorização de sua moeda, o acúmulo de divisas estrangeiras foi retomado num forte ritmo.

Apesar de o modelo de crescimento orientado para a exportação ter sido abalado pela crise, muitos países se mostram relutantes em promover um reajuste. O começo do reabastecimento dos estoques ajudou a Ásia significativamente. Evitar a valorização da moeda vai exacerbar a tendência, ampliando o acúmulo de divisas e as distorções.

As mais recentes estimativas do FMI - divulgadas no World Economic Outlook de outubro de 2009 - sugerem que os desequilíbrios podem se ampliar novamente, mas continuam representando parcela menor do PIB do que o auge de 2006. Mas o valor em dólares pode ser imenso. Na previsão do FMI, o superávit da China vai aumentar de novo em 2010, mesmo enquanto o consumidor americano segue enfraquecido e gastando menos.

Assim, quem compensa o déficit dos EUA? O FMI sugere uma difusão dos desequilíbrios, na qual os superávits de Alemanha e Japão seguirão caindo mesmo em 2010, enquanto os déficits de Canadá e Austrália, assim como os de economias emergentes como o Brasil, compensarão a expansão do superávit chinês. Entretanto, as projeções quinquenais do FMI mostram também um superávit em conta corrente cada vez maior no mundo todo. Isso pode sugerir que algumas dessas previsões para a exportação sejam otimistas demais, levando em consideração as previsões de crescimento.

Os desequilíbrios globais voltaram à pauta quando o G-20 concordou com uma revisão paritária das medidas macroeconômicas e dos desequilíbrios para evitar outra crise. Os detalhes são limitados por enquanto, mas se concentram novamente num acordo: os EUA consumirão menos e pouparão mais; Japão, Alemanha e China gastarão mais e afastarão o investimento do setor exportador.

Estes são os objetivos corretos. Mas uma mensagem conjunta de uma organização internacional recém-criada não é algo de que o mundo possa depender. O FMI precisa de garras, talvez algo parecido com a autoridade da Organização Mundial do Comércio, capaz de manobrar seus países-membros para que cheguem a acordos "extrajudiciais" com o intuito de garantir o cumprimento desses exigentes objetivos políticos e econômicos. Os desequilíbrios representam graves equívocos na alocação de capitais nas economias domésticas que, projetados globalmente, elevam o risco de crises financeiras e bolhas de ativos.

Apesar de os desequilíbrios não terem causado a crise - acredito que o relaxamento na regulação tenha uma parcela muito maior da culpa - eles colaboraram para criar as condições. Dinheiro fácil e baixas taxas de juros a longo prazo criaram um incentivo para investir em ativos de alta lucratividade e aparente segurança. Um retrocesso organizado dos desequilíbrios pode frear o crescimento global no período de ajustes, mas é fundamental para o crescimento global sustentável.

*Professor de Economia na Escola de Administração Stern, da Universidade de Nova York, escreveu o artigo para o "International Herald Tribune"