Título: Dívida de ricos vai elevar juro global
Autor: Mello, Patrícia Campos
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/11/2009, Economia, p. B9

Relatório do FMI prevê que endividamento dos países do G-20 vai chegar a uma média de 118% do PIB em 2014

O endividamento dos países ricos deve chegar a uma média de 118% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2014 e isso vai causar um aumento de 2 pontos porcentuais nos juros mundiais. Esse é o alerta do Fundo Monetário Internacional (FMI) em seu relatório "O estado das finanças públicas nos países - monitor fiscal novembro 2009", divulgado ontem. "Dois pontos porcentuais são um aumento nada trivial; sem dúvida, isso pode prejudicar a recuperação global, porque vai encarecer o financiamento para o setor privado", disse Carlo Cottarelli, diretor do Departamento de Assuntos Fiscais do Fundo.

"Os países não devem começar a fazer aperto fiscal agora, porque a recuperação ainda é frágil e em grande parte decorrente dos estímulos, mas é importante desenhar planos de estabilização do setor fiscal." Segundo o Fundo, para que os países avançados consigam trazer sua relação dívida-PIB abaixo dos 60% até 2030, nível considerado sustentável, terão de melhorar em 8 pontos porcentuais seus superávits primários (excluindo fatores sazonais).

Japão, Grã-Bretanha, Irlanda e Espanha vão exigir os maiores ajustes fiscais. "Para isso, além de não renovar os pacotes de estímulo, esses países terão de congelar os gastos do governo per capita, avançar com as reformas do sistema de saúde e previdência, e aumentar os impostos em pelo menos 3 pontos porcentuais do PIB", disse Cottarelli.

Entre as economias avançadas, só a Coreia, Dinamarca, Suécia e Austrália não vão precisar de grandes ajustes para manter seu endividamento constante.

De acordo com o relatório, os países do G-20 (grupo das 19 maiores economias do mundo, mais a União Europeia) ainda vão manter seus programas de estímulo e consequente expansão fiscal no ano que vem, enquanto os emergentes vão começar a desfazer a expansão fiscal já em 2010.

No G-20, o déficit fiscal deve cair de uma média de 7,9% este ano para 6,9% no ano que vem, abaixo das previsões feitas em julho. Isso porque os países acabaram gastando menos em apoio ao sistema financeiro do que se previa.

O FMI acredita que a situação fiscal no Brasil vai melhorar com a retomada do crescimento e aumento da arrecadação. Segundo o Fundo, o déficit nominal deve passar de 3,8% do PIB este ano para 1,2% em 2010 e 1% em 2014. Perguntado pelo Estado se o FMI vê perigo de expansão fiscal no Brasil por causa do ano eleitoral, Cottarelli afirmou: "Estamos partindo do pressuposto que a economia reforça sua recuperação no ano que vem e emergentes como o Brasil iniciam o aperto fiscal em 2010, mas nós não levamos em conta outras políticas que possam ser incorporadas".

O FMI prevê que a relação dívida bruta-PIB do Brasil deve permanecer acima dos 60% por muitos anos. Ela passou de 66,8% em 2007 para 68,5% em 2008, e baixará para 65,9% em 2010 até 58,8% em 2014. "A relação dívida-PIB não é razão de preocupação iminente, mas o Brasil deveria retomar esforços de reduzi-la no médio prazo."