Título: Sem opção, produtor cultiva soja
Autor: Tomazela, José Maria
Fonte: O Estado de São Paulo, 08/11/2009, Economia, p. B19
Com preços baixos, outras culturas de verão, como milho, feijão e algodão, cederam terras para a oleaginosa
Nas principais regiões agrícolas do País, mais da metade da safra de verão já está no solo e, com pouca alternativa, o produtor fez opção pela soja. Outras culturas da época, como milho, feijão e algodão, com preços baixos, cederam as terras para o avanço da oleaginosa. A área de 22,7 milhões de hectares será a maior área já plantada com esse grão e a safra pode chegar a 63,6 milhões de toneladas, quase a metade da produção total de grãos do País, prevista em 139 milhões de toneladas.
Em Mato Grosso, maior produtor brasileiro, um mar de soja se estende desde a fronteira com a região amazônica, no extremo norte, até os campos de Rondonópolis, ao sul. Dos 20 municípios brasileiros com maior área plantada, 13 se localizam nessa região, entre eles Sorriso, que lidera o ranking nacional com área de 600 mil hectares.
De acordo com o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), a área cultivada no Estado deve chegar a 5,9 milhões de hectares, com produção prevista de 18 milhões de toneladas. Beneficiada pelas chuvas, a soja recém-plantada germina até em áreas que, na safra passada, foram cultivadas com algodão.
O agricultor, porém, está cheio de incertezas. Depois de um ano de safras ruins, afetadas tanto pela seca quanto pelo excesso de chuvas, até a safra abundante preocupa. Com o câmbio desfavorável, se houver superprodução, os preços podem cair. "O cenário é de risco", afirma Emílio Kenji Okamura, presidente da Cooperativa Agrícola de Capão Bonito, interior de São Paulo. Um novo desempenho negativo aprofunda a crise no setor e atrapalha a economia do País, segundo ele.
"Os produtores estão sem capital, pois tiveram perdas no milho e no trigo." No caso do trigo, conta, o desastre foi completo: além da baixa produção, o cereal ficou sem qualidade e encalhou. Apenas no Estado de São Paulo, 200 mil toneladas estão nos silos, à espera de compradores. A soja é a opção que restou, segundo ele. "Se não der certo, o produtor não terá como fazer a safra de inverno em 2010", garante.
Na fazenda Lagoa Bonita, em Itaberá, sudoeste paulista, plantadeiras de última geração distribuem as sementes de soja nos sulcos abertos na soqueira do milho. A safrinha desse grão, colhida recentemente, foi ruim de produção e de preço, afirma o agricultor Ariovaldo Fellet. "Depois da perda com a geada, vendemos a R$ 18 a saca."
Com um cultivo anual de 5 mil hectares de grãos, ele distribuiu a área de verão com 70% para a soja e 30% para o milho. As lavouras estão sob pivôs de irrigação, o que reduz um pouco a dependência do clima. "Este ano, o problema foi chuva em excesso", diz.
Acostumado aos altos e baixos da atividade, Fellet se diz confiante. "Entre as horas boas e ruins, a média ainda favorece o agricultor." Ele cita o caso do feijão: há dois anos, os produtores chegaram a vender a saca a R$ 280. Na safra atual, em fase de colheita, além da baixa produção, os preços despencaram para a média de R$ 65 a saca.
O diretor da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja), Carlos Favaro, alerta para o risco da produção excessiva de soja. "Se houver muita oferta, com o câmbio atual, as contas não vão fechar." Na semana passada, o grão chegou à cotação de US$ 16 ao câmbio de R$ 1,70, para entrega na colheita, em março.
MENOS COMPETITIVO
A possibilidade de uma supersafra preocupa também o presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), Cesário Ramalho da Silva. O real valorizado em relação ao dólar, segundo ele, torna o produtor brasileiro de soja menos competitivo no exterior. Silva lembra que as grandes safras da Argentina e dos Estados Unidos devem contribuir para o excesso de oferta do grão.
No norte do Paraná, o calor forte preocupava, na última sexta-feira, o produtor Adelino Rigotto, da região de Londrina. As chuvas que atrasaram o plantio de 170 hectares tinham passado e o chão ardia sob o sol. "O solo ainda tem umidade, mas o calor está demais. Se chover um pouco, a lavoura deslancha."
A soja em fase de germinação se espalha pela região de Maringá, sede da Cocamar, uma das maiores cooperativas agrícolas do País. Ali também, depois de amargar prejuízos com o milho, os agricultores penderam para a oleaginosa. Até a semana passada, 50% da safra tinha sido plantada.
De acordo com o engenheiro agrônomo Walmir Schreiner, da Cocamar, a semeadura será concluída até o final do mês. A maioria dos agricultores optou por variedades precoces para ter a possibilidade de plantar a safrinha de milho ainda no primeiro semestre de 2010.