Título: SIP vê censura sutil no continente
Autor: Palacios, Ariel
Fonte: O Estado de São Paulo, 07/11/2009, Nacional, p. A13
Rede de esquemas para restringir funcionamento da mídia é um dos eixos da assembleia aberta ontem
A denominada "censura sutil" sobre a imprensa - uma rede de esquemas criados pelos governos para restringir o funcionamento da mídia - é um dos eixos da assembleia da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), aberta ontem no Hotel Hilton na capital argentina. Mais de 500 editores da região analisarão até terça-feira as medidas de censura sobre o trabalho jornalístico, reformas legais que dificultam a ação da mídia, além da interferência dos governos latino-americanos nos conteúdos editoriais e ataques a jornalistas.
A SIP, fundada em 1942, é integrada por 1.300 jornais do continente, com circulação diária total de 50 milhões de exemplares.
Segundo o chileno Julio Muñoz, diretor executivo da SIP desde 1994, "existe uma atitude de revanchismo contra a imprensa" na Argentina, onde o governo de Cristina Kirchner mantém intenso e persistente confronto com a mídia desde 2008. Muñoz também destacou problemas graves na Venezuela, no Equador, na Bolívia, em Honduras e na Nicarágua. Segundo ele, as modalidades dos ataques à liberdade de imprensa variam de acordo com os países. No caso argentino, a liberdade foi atingida pela recém-aprovada Lei de Mídia, que restringe a ação dos canais de TV e rádio.
Muñoz considera que a lei aplicada por Cristina e as normas determinadas pelo presidente do Equador, Rafael Correa - segundo o qual, as leis contra a mídia são para "proteger os cidadãos" - têm "o propósito de controlar os meios de comunicação, criar um monopólio estatal de mídia e eliminar a imprensa independente".
A presidente foi convidada pela SIP para participar do evento, mas, até ontem não respondeu.
No caso da Venezuela, as restrições são realizadas no formato de agressões e ameaças contra informações consideradas "incômodas" nos jornais e televisão. Os especialistas também discutirão casos de censura encobertas no Brasil, El Salvador e Colômbia, além do assassinato de jornalistas no México.
BICENTENÁRIO
O principal painel da primeira jornada da assembleia da SIP a discutir os problemas para a liberdade de imprensa na região foi o Luzes e sombras do bicentenário na América Latina, com a participação da veterana jornalista argentina Magdalena Ruiz Guiñazú, a historiadora María Sáenz de Quesada e o senador e jornalista Rodolfo Terragno.
Terragno, que foi perseguido nos anos 70 por suas atividades jornalísticas pelo governo de Isabelita Perón e a posterior a ditadura militar, sustentou que a internet dificultará aos governos autoritários a imposição de restrições à mídia.
Segundo ele, "nunca antes tantas pessoas puderam comunicar-se com tantas outras pessoas. E isso é uma coisa que está apenas começando. Os governos não estão preparados para isso, pois estão acostumados apenas à propaganda oficial. Com essa revolução jornalística na web, os governos não poderão mais buscar os jornalistas nas redações nem limitar a circulação dos exemplares. A internet dificultará a tarefa dos governos despóticos".
A historiadora Maria Sáenz de Quesada destacou que o problema atual é que governos eleitos nas urnas, ao chegar ao poder, acreditam que dispõem de "um butim de guerra" e não apreciam a imprensa que fiscaliza suas ações.
O Instituto Imprensa e Sociedade (Ipys) da Venezuela anunciou o registro de 107 ataques contra jornalistas e meios de comunicação no país nos primeiros dez meses deste ano. Segundo Ewald Scharfenberg, do Ipys, 2009 foi o ano de mais intensa violência contra a imprensa na Venezuela. Desde 2002 foram registrados 464 casos de violência contra jornalistas e as empresas de mídia, a maioria dos quais direcionados contra repórteres de canais de TV.