Título: Reformas no sistema financeiro e no câmbio dominam reunião do G-20
Autor: Netto, Andrei
Fonte: O Estado de São Paulo, 07/11/2009, Economia, p. B12
Ministros também tentarão acordo sobre outros temas, como comércio internacional e excesso de reservas
As negociações para a reforma do sistema financeiro internacional têm uma nova etapa hoje, em Saint Andrews, cidade de 16 mil habitantes do interior da Escócia, onde se reunirão os ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais (BCs) do grupo das 20 maiores economias do mundo (G-20).
A pauta da conferência ministerial inclui pelo menos dois novos ingredientes de interesse do Brasil: reequilíbrio cambial e taxação de transações financeiras. O exemplo do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) adotado pelo governo brasileiro na entrada de capitais estrangeiros despertou a curiosidade do grupo.
A reunião teve início às 21 horas de ontem (hora local), com o jantar de trabalho, realizado no Hotel Fairmont. As negociações, entretanto, serão realizadas neste sábado, entre as 8 horas e 15h30.
Depois das cúpulas do G-20 de Londres, em abril, e Pittsburgh (EUA), em setembro, a tendência é que os temas predominantes sigam sendo a proposta do governo americano: criação de um novo sistema de equilíbrio do comércio internacional - tema que desagrada aos grandes exportadores, como China e Alemanha - e acúmulo de reservas internacionais, considerado excessivo pelos Estados Unidos.
Os outros temas já são clássicos nesses encontros internacionais: reforma do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial e regulação financeira e controle de riscos e de pagamento de bônus pagos a executivos dos bancos.
"A reunião vai girar em torno dos mecanismos para garantir o crescimento sustentável, que é o que já vínhamos discutindo", disse ao Estado, em Londres, o presidente do Banco Central do Brasil, Henrique Meirelles.
O que Meirelles evitou comentar é que alguns diferenciais da reunião de Saint Andrews estão nas mãos do Brasil. Como o ministro da Fazenda, Guido Mantega, antecipou em Londres, a delegação brasileira vai propor a adoção do câmbio flutuante como padrão dos países do G-20, uma forma de controlar o que chama de "desequilíbrios cambiais", que se traduzem no excesso de valorização de moedas como o real.
De acordo com um relatório do Banco Goldman Sachs, a divisa brasileira está sobrevalorizada em 50% em relação ao yuan, da China, e em 51% em relação ao dólar americano.
O tema é sensível por afetar os interesses da China, cuja moeda é orientada pelo câmbio administrado, ou "fixo", atrelada ao desempenho da divisa americana. "Estamos com um problema de desequilíbrio cambial que deve ser discutido em uma mesa de 20 países, que é o G-20. Certos conflitos são naturais, quando se coloca em torno de uma mesa países com situações diferentes", ponderou Mantega, referindo-se às rodadas de negociações no G-20. "Temos de saber trabalhar com o adverso, e até aqui temos tido muito sucesso."
Ontem, Mantega teve encontros bilaterais com ministros da África do Sul, da Austrália e da Índia. Sul-africanos e franceses, de acordo com assessores do Ministério da Fazenda, demonstraram interesse particular pelos efeitos da cobrança do IOF sobre o ingresso de dólares para investimentos de curto prazo, um indicativo de que o tema deve atrair atenções na cúpula.
O grupo também deve voltar a discutir a manutenção ou não dos pacotes de estímulo governamentais à retomada econômica, que estão na origem do fim da recessão em países como os Estados Unidos, a Alemanha e a França.
Na quinta-feira, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, anunciou em Frankfurt o "início do fim" das intervenções extraordinárias nos mercados, alegando que "nem todas as medidas de injeção de liquidez serão necessárias como foram no passado".
A iniciativa expõe a divisão de análises entre os países ricos. Ontem, Alistair Darling, ministro de Finanças do Reino Unido - país que ainda vive sua pior recessão desde 1955 -, pediu a manutenção dos incentivos à atividade econômica.
"Tentaremos chegar a um acordo para assegurar que não removeremos o apoio cedo demais, porque a recuperação não é estável em todos os países", justificou Darling.
Em relatório obtido pela Agência Reuters em Saint Andrews, o Fundo Monetário Internacional endossou a tese da manutenção dos pacotes de estímulo, em razão da "fragilidade da recuperação global", e pediu que o G-20 não corte seus programas de incentivo cedo demais.
"O ritmo da recuperação é desigual, em particular nas economias avançadas", argumentou a instituição. "A demanda é largamente conduzida por medidas de relance."
Além desses temas, os ministros do G-20 também vão discutir hoje o financiamento do acordo do clima que será negociado no início de dezembro, em Copenhague, na Dinamarca.