Título: Grandino Rodas será o reitor da USP
Autor: Duailibi, Julia ; Cafardo, Renata ; Gonçalves, Ale
Fonte: O Estado de São Paulo, 13/11/2009, Vida&, p. A15
Segundo mais votado, diretor da São Francisco foi escolhido por Serra, na 1.ª decisão do tipo desde a ditadura
O jurista e diretor da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, João Grandino Rodas, é o novo reitor da Universidade de São Paulo (USP). Ele ficou em segundo lugar nas eleições realizadas anteontem na instituição, mas era o candidato preferido do governador José Serra. Essa foi a primeira vez desde a ditadura militar que um governador não escolheu o primeiro da lista tríplice para reitor.
A escolha está publicada hoje no Diário Oficial. A lista tríplice foi entregue oficialmente ao governador no início da noite de ontem pela reitora Suely Vilela e pelo secretário de Ensino Superior, Carlos Vogt. Por volta das 21 horas, o Estado recebeu a informação de que Serra já tinha decidido. Também à noite, em uma missa na Igreja do Largo São Francisco, o padre já anunciava o nome do reitor.
O primeiro colocado nas eleições, o cientista Glaucius Oliva, foi apoiado pela reitora. Desde o fim das eleições na USP, Serra vinha sendo aconselhado a escolher Rodas. A avaliação no governo era a de que a decisão não traria grande prejuízo político, já que Oliva venceu o pleito, mas não obteve a maioria dos votos. O terceiro foi Armando Corbani, pró-reitor e físico.
Rodas é bem visto por secretários e assessores do governo. Tem o apoio de nomes como Celso Lafer, Dalmo de Abreu Dallari e ex-reitores da USP. A proximidade de Oliva com Suely - ele a ajudou em sua gestão - era o que mais pesava contra sua indicação. Serra não conhece bem o cientista e tinha poucas informações para atestar sua competência administrativa.
A relação de Suely com o governo começou a se complicar com greves em 2007. Naquele ano, Serra baixou decretos sobre a gestão da instituição que foram entendidos como afronta à autonomia conquistada em 1988. A reitoria foi invadida por 50 dias e Suely irritou o governador por não saber lidar com o episódio. Neste ano, ela também foi criticada por permitir a entrada da polícia no câmpus, o que levou a conflito com alunos.
Segundo fontes ouvidas pelo Estado, seria diferente se houvesse uma indicação forte na primeira votação. Na USP, há, no máximo, três votações para que algum candidato consiga maioria do colégio eleitoral. Nenhum deles chegou a esse resultado (164 votos). Oliva obteve 161, Rodas, 104 e Corbani, 101.
A avaliação também é a de que há grande descontentamento interno com o processo eleitoral da USP, considerado pouco representativo. É diferente do que ocorre na Unicamp e Unesp, cujos pleitos incluem todos os docentes, alunos e funcionários. Oliva foi informado pela reportagem do Estado que havia sido preterido e não quis dar declarações até receber um comunicado oficial.
Ontem, a avaliação no Palácio dos Bandeirantes era que Serra caminhava para indicar o nome com o currículo mais forte. Ele defendia que o reitor da USP fosse alguém de peso, com nome gabaritado e histórico de serviços prestados na academia. Serra não se intimidaria em indicar quem não encabeça a lista. Achava que, mais importante do que seguir uma tradição - desde 1981, quando Paulo Maluf não escolheu o primeiro, o mais votado era sempre nomeado -, era indicar um nome afinado com o palácio.
O pesquisador Paulo Saldiva, da Faculdade de Medicina da USP, acredita que dois fatores influenciaram a decisão do governador: Rodas representaria uma ruptura maior com a gestão atual da universidade e seu currículo o qualificaria para dar maior projeção externa à instituição. Para ele, Rodas deveria convidar Oliva para compor a nova administração.
"Espero que as discussões durante a campanha sobre mais recursos para estudantes, a carreira dos professores ou a renovação do corpo docente gerem mudanças concretas que tornem a universidade mais democrática", afirmou o presidente da Associação dos Docentes da USP (Adusp), João Zanetic.
"O Rodas é claramente o candidato do Serra para defender as políticas do governo", afirmou Débora Manzano, da coordenação do Diretório Central dos Estudantes da USP (DCE-USP).