Título: Italianos esperam por justiça
Autor: Recondo, Felipe
Fonte: O Estado de São Paulo, 18/11/2009, Nacional, p. A4

Na Itália, ativista está condenado por crimes comuns

A perspectiva de uma decisão pelo STF, hoje, em Brasília, sobre o futuro de Cesare Battisti está deixando familiares de vítimas, em Roma e em Milão, sob a expectativa de que a Justiça, enfim, lhes seja rendida. Causa que reagrupa direita e esquerda na Itália, a extradição do ex-membro dos Proletários Armados pelo Comunismo (PAC) é visto no país como um passo à frente para curar as feridas abertas pelos anos de chumbo.

Verdadeiro porta-voz dos que defendem a punição de ex-guerrilheiros, Alberto Torregiani é um dos símbolos da defesa da extradição de Battisti. Filho do joalheiro Pierluigi Torregiani, morto em 1979, em Milão, durante um ataque do PAC, ele vive preso a uma cadeira de rodas desde então, quando foi atingido por disparos que o deixaram paraplégico. "Esperamos que a corte suprema brasileira se manifeste em definitivo, e que seu parecer seja afirmativo", afirmou ontem ao Estado. "Há muitas famílias de vítimas que estão em contato permanente. Em geral, os ânimos estão serenos. Todos aguardam o resultado com expectativa, mas com tranquilidade".

Segundo Torregiani, embora o STF seja a última instância da Justiça no Brasil, os protestos e a luta pela extradição de Battisti não se acabarão caso os ministros votem a favor do refúgio político. "Se a extradição não for aceita, seguramente haverá manifestações. Nosso propósito não é em primeiro lugar trazer Battisti à Itália, mas fazer justiça. Aqui ele está condenado por crimes comuns, e não políticos, em processos justos. Queremos que ele responda pelos crimes."

Giovanni Bachelet, físico e deputado pelo Partido Democrático (PD), da oposição de centro-esquerda, também demonstra expectativa pela decisão do STF. Filho de Vittorio Bachelet, jurista e membro democrata-cristão da Aliança Católica, morto em fevereiro de 1980 pelas Brigadas Vermelhas - grupo ao qual Battisti não estava ligado -, ele deixou de tratar a extradição do ativista como tema de foro íntimo desde que se tornou homem público, em abril de 2008. Assumiu posição conciliadora, em favor do "perdão e da reconciliação" nacionais, mas também pela punição dos responsáveis pelos crimes cometidos nos anos 70, 80 e 90 na Itália.

"Eu sempre tive muita confiança na independência da Justiça brasileira. Assim como nós, tanto dos partidos do governo, quanto dos da oposição, demonstramos estar de acordo com os resultados dos julgamentos que resultaram nas condenações de Battisti na Itália", ponderou Giovanni, que evita estimar um resultado no STF. Para o deputado italiano, um capítulo dos anos de chumbo italianos pode estar próximo do fim, mas nem a eventual extradição de Battisti significará final feliz. "Ninguém está feliz com nada disso."