Título: Retórica cortês de Obama e Hu não esconde principais divergências
Autor: Trevisan, Cláudia
Fonte: O Estado de São Paulo, 18/11/2009, Internacional, p. A12
EUA e China reforçam cooperação, mas continuam a discordar sobre direitos humanos, regime cambial e Irã
Estados Unidos e China fizeram ontem promessas de respeito mútuo e aumento do diálogo e cooperação na tentativa de construir uma relação de "confiança estratégica", mas continuaram a divergir em questões fundamentais, como direitos humanos, o regime cambial chinês e o grau de agressividade que deve ser adotado em relação ao programa nuclear iraniano.
O principal avanço ocorreu na negociação em torno da mudança climática, com o compromisso dos dois países de buscar um acordo amplo e de aplicação imediata em Copenhague, dando novo impulso às negociações da Conferência sobre o Clima.
Os presidentes Barack Obama e Hu Jintao reuniram-se ontem durante duas horas no Palácio do Povo, na Praça Tiananmen, o coração político de Pequim. Em seguida, realizaram o que os chineses chamaram de "entrevista coletiva", mas na qual os jornalistas não puderam fazer perguntas.
Nos seus discursos, ambos se esforçaram para destacar a cooperação e interesses comuns, mas o resultado do encontro demonstra que persistem diferenças históricas. No caso da cotação do yuan, americanos não conseguiram nem mesmo que o tema fizesse parte da declaração conjunta aprovada pelos dois presidentes.
As discordâncias ganharam mais peso com a inevitável tensão que marca o relacionamento entre uma potência estabelecida e outra emergente. A China deverá ultrapassar o Japão no próximo ano e tornar-se a segunda maior economia mundial. A posição é reforçada pelo fato de o país ser o maior credor externo dos EUA, com um estoque de pelo menos US$ 800 bilhões em títulos do Tesouro americano. "Antes da crise financeira, os EUA estavam na posição de líder mundial", disse Shi Yinhong, professor de relações internacionais na Universidade Popular da China em Pequim, ao New York Times. "Agora, com China e EUA, poderemos ver que os EUA dependem da China em mais questões do que a China depende dos EUA."
Pequim afirmou que sua emergência é pacífica e tem como objetivo a construção de um mundo "harmonioso", enquanto Washington disse que dá boas-vindas a uma China "forte e próspera" no cenário global.
Os dois presidentes também tentaram reduzir o peso das divergências. "Nas nossas conversas, ressaltei ao presidente Obama que, dadas as diferenças entre nossas condições nacionais, é normal que os dois lados discordem em certos temas. Mas é importante respeitar e acomodar interesses fundamentais", observou Hu.
Com sua viagem, Obama pretendia estabelecer com a China cooperação em uma série de temas globais, que revelam o novo protagonismo do país asiático. "Os maiores desafios do século 21, da mudança climática à proliferação nuclear e à recuperação econômica, são desafios que afetam nossas duas nações e nenhuma delas pode resolver atuando isoladamente", disse o presidente americano. "Nós nos encontramos no momento em que a relação entre os EUA e a China nunca foi tão importante para nosso futuro coletivo", acrescentou Obama. Os dois países concordaram em aprofundar seu relacionamento por meio do aumento da cooperação, intercâmbio e troca de informações.
Na área militar, EUA e China afirmaram que promoverão um diálogo "sustentável e confiável", com o objetivo de buscar "maior compreensão da intenção de cada um no ambiente de segurança internacional", de acordo com a declaração conjunta. A modernização e expansão do Exército de Libertação Popular é uma das principais preocupações dos EUA em relação à China e ajuda a compor a percepção negativa do lado americano do que alguns analistas chamam de "desconfiança estratégica" entre os dois países.
O Pentágono questiona a suposta falta de transparência dos gastos militares da China e levanta dúvidas sobre os motivos que justificam o fortalecimento das Forças Armadas chinesas.