Título: García sobe o tom com o Chile e eleva tensão
Autor: Charleaux, João Paulo ; Costas, Ruth
Fonte: O Estado de São Paulo, 18/11/2009, Internacional, p. A14

Após denunciar caso de espionagem, líder peruano diz que o país vizinho é 'republiqueta'; Bachelet reage

O presidente peruano, Alan García, qualificou o Chile de "republiqueta" na madrugada de ontem, contribuindo para criar um novo foco de tensão na América Latina. As relações entre os dois países já andavam estremecidas havia meses, mas azedaram de vez no fim de semana, quando García acusou o Chile de cooptar um militar peruano para espionar para o seu governo. "Esses são atos repulsivos, que não correspondem aos de um país democrático e deixam mal a presidência do Chile", disse García. "São próprios de uma republiqueta."

A presidente chilena, Michelle Bachelet, reagiu: "As acusações, que eu considero ofensivas, não contribuem para a cooperação e a integração entre os dois países."

Pouco depois, o chanceler peruano, José Antonio García Belaúnde, anunciou que as provas do ato de espionagem seriam entregues para Santiago. "Estamos num ponto delicado das relações (com o Chile)", admitiu. Às vésperas da eleição do dia 13, a oposição chilena pede o rompimento com o Peru.

De acordo com Lima, o suboficial da Força Aérea Víctor Ariza foi recrutado pelo Chile sete anos atrás e recebia US$ 3 mil mensais para repassar informações relativas ao arsenal, os planos de contingência e a identidade dos alunos da escola de inteligência da Aeronáutica peruana. As provas do esquema estariam no computador de Ariza e em documentos encontrados com ele.

Em agosto, García já tinha denunciado um acordo secreto entre o Chile e a Bolívia, que daria saída para o mar para os bolivianos, mas prejudicaria os interesses de Lima. Além disso, em duas ocasiões, em 2008, o Chile disse ter sido vítima de espionagem dos peruanos. Na mais grave, funcionários da embaixada chilena em Lima tiveram seus e-mails vasculhados por um hacker, supostamente a serviço da inteligência do Peru.

O aumento da desconfiança entre os dois países teria, segundo analistas chilenos e peruanos ouvidos pelo Estado, três motivações.

A primeira é o processo movido por Lima contra Santiago na Corte Internacional de Justiça da ONU, em Haia. O Peru reivindica do Chile uma área de 95 km² no Oceano Pacífico.

"Por isso, tenta dar visibilidade a sua demanda e mostrar-se agredido, na esperança de receber uma decisão favorável", disse Mladen Yopo, subdiretor da Academia Nacional de Estudos Políticos e Estratégicos do Ministério da Defesa do Chile.

"García parte da hipótese de que a Corte lhe dará razão e o Chile não acatará a decisão. Por isso, seria necessário aumentar a força militar peruana e controlar o crescimento da chilena pela pressão da opinião pública regional e global", opina José Rodríguez Elizondo, professor de direito da Universidade do Chile, em Santiago.

O segundo motivo é a compra de armamentos dos militares chilenos - como a recente encomenda feita aos EUA de US$ 665 milhões em mísseis Stinger de médio alcance e em um novo sistema de radares.

O Peru diz que as compras chilenas extrapolam os parâmetros da "dissuasão" e "projeção de força".

"Nos anos 70, chilenos e peruanos gastavam quase o mesmo em defesa", diz Farid Kahhat, cientista político da Universidade Católica do Peru. "De lá para cá, os gastos do Peru permaneceram quase estáveis. Os do Chile aumentaram três vezes e não há perspectiva de reversão desse processo, já que a Lei do Cobre destina 10% das exportações deste produto para as Forças Armadas."

ECONOMIAS ASSIMÉTRICAS

O último fator que impulsionaria a tensão entre os dois países é a assimetria nas relações econômicas.

Segundo Kahhat, hoje há US$ 7 bilhões em investimentos chilenos no Peru e só US$ 1 bilhão em investimentos peruanos no Chile.

"Já há uma rivalidade histórica entre os dois países por causa da Guerra do Pacífico (mais informações nesta página). Agora, esse aumento da presença chilena é vista como uma nova ameaça no Peru", diz. Segundo pesquisas recentes citadas pelo analista, 74% dos peruanos veem os investimentos estrangeiros no país com bons olhos. Quando o capital é chileno, o índice cai para 41%.

ACUSAÇÕES

Alan García Presidente do Peru "Esses são atos repulsivos, que não correspondem a um país democrático. São atos próprios de uma republiqueta"

Michelle Bachelet Presidente do Chile "São acusações ofensivas que em nada contribuem para a cooperação e integração. O que deve primar é o respeito e a responsabilidade das autoridades"