Título: Ninguém quer colocar as cartas na mesa
Autor: Trevisan, Cláudia
Fonte: O Estado de São Paulo, 18/11/2009, Vida&, p. A18
Negociações diplomáticas costumam ser comparadas a um jogo de pôquer, em que cada país tenta esconder suas cartas até o último minuto. O jogo político das mudanças climáticas não é exceção. Os acontecimentos recentes mostram que há muitas cartas ainda para aparecer na mesa antes do apito final de Copenhague, no mês que vem.
Foi assim em 1997, no Japão, onde o Protocolo de Kyoto só foi aprovado no último minuto da última madrugada, com gente já implorando para ir embora. "Toda negociação tem o seu tempo. Só acaba quando for para acabar", disse um diplomata brasileiro. Ninguém quer abrir suas cartas sem saber o que o outro tem na mão. E para isso, às vezes, é preciso blefar.
Declarar que Copenhague estava morta antes da hora talvez tenha sido a melhor estratégia para mantê-la viva. Ao dizer antecipadamente que será muito difícil - ou até impossível - chegar a um acordo na capital dinamarquesa, os países industrializados se colocam numa posição confortável. Se não acontecer nada mesmo, paciência, era o que todo mundo já esperava. Se, por outro lado, alguém aparece com uma solução no último minuto, será o salvador do planeta.
A cartada que pode definir o jogo é a dos Estados Unidos. Nenhum outro país industrializado vai se comprometer com metas ambiciosas se o maior responsável pelo problema não fizer a sua parte. Dois dias atrás, o presidente Barack Obama disse que era irrealista esperar um acordo em Copenhague. Agora diz querer um acordo "que inclua metas de redução de emissões para os países desenvolvidos", mas não afirma se ele mesmo vai apresentar uma. Quem sabe não aparece um número no último minuto para salvar o mundo. Tomara.