Título: Cai diferença de renda entre negros e brancos
Autor: Werneck, Felipe
Fonte: O Estado de São Paulo, 20/11/2009, Nacional, p. A9
Apesar da redução, desnível de remuneração continua alto no País
A remuneração média de trabalhadores brancos foi 90,7% maior que a de pretos e pardos em setembro, aponta estudo do economista Marcelo Paixão, baseado na Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE, que reúne dados sobre as seis maiores regiões metropolitanas do País. É o último dado disponível.
Desde o início da crise econômica global, o auge da diferença entre os dois grupos tinha sido em fevereiro, quando a renda dos brancos era 102% superior. "Qualquer queda de desigualdade é para ser comemorada. Não se pode é ser exagerado no grau de otimismo, porque não vejo nos indicadores motivos para supor que esse ritmo de redução da desigualdade vá se manter nos próximos meses", diz Paixão, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde coordena o Laboratório de Análises Econômicas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais (Laeser).
Formado em economia e doutor em sociologia, o professor cita hipóteses para a redução registrada até setembro, um ano após o início da crise - em setembro de 2008, os brancos ganhavam 101% a mais. Uma delas é a retomada de investimentos na construção civil, que recebeu incentivos do governo. A participação dos negros e pardos no setor é majoritária (59,9%).
Outra explicação seria a maior presença do grupo em setores informais, em tese menos afetados pela crise. A pesquisa mostra que o peso do setor formal era de 65% entre os brancos do sexo masculino e de 60% entre os pretos e pardos. Entre mulheres, era de 58% para brancas e 47% para pretas e pardas.
"No momento em que a crise atingiu seu momento mais complicado, as desigualdades aumentaram. Ao longo do ano, houve declínio nas desigualdades, que ainda são muito profundas e dificilmente vão ser superadas apenas com medidas gerais", diz o professor.
Em setembro, a maior desigualdade foi na região metropolitana de Salvador, onde a remuneração dos brancos era 136% maior que a de pretos e pardos, seguido por Recife (96,5% maior), Rio (96,1%), Belo Horizonte (95,3%), São Paulo (91,5%) e Porto Alegre (51,9%).
ABISMOS
Para Paixão, há "forte persistência da preservação de abismos" no Brasil. "Uma política de expansão do crédito e mais frouxa do ponto de vista fiscal não tem por objetivo combater desigualdades sociais nem raciais", diz."O ideal seria que fossem combinadas com ações afirmativas e políticas de valorização de grupos que estão historicamente numa situação de muita desvantagem. Na medida em que forem alvo de uma política positiva, essas desigualdades poderão cair de forma mais consistente."
NÚMEROS
90,7% É quanto os trabalhadores brancos recebem, em média, a mais do que os pretos e pardos, segundo o IBGE
136% É a maior desigualdade do País, registrada na região metropolitana de Salvador