Título: Super-Mário Torós?
Autor: Macedo, Roberto
Fonte: O Estado de São Paulo, 19/11/2009, Espaço aberto, p. A2
Matéria do jornal Valor do dia 13 deste mês precipitou a saída do então diretor de Política Monetária do Banco Central (BC), o economista Mário Torós, do cargo. Foi uma saída que o noticiário já incluíra no rol das previsões, ainda que sem datá-la.
O texto é interessante sob vários aspectos. Entre outros, porque a entrevista desse diretor, na qual se centrou a matéria, e outras informações coletadas pelos jornalistas que a prepararam dão detalhes de um bom pedaço do que se passou nas entranhas do BC durante os difíceis dias que se seguiram à eclosão da crise econômico-financeira mundial, em setembro do ano passado. Até aqui eram aspectos desconhecidos do público em geral e creio que mesmo da grande maioria dos que acompanham o mercado financeiro.
Também mostra uma personalidade forte e interessante, até então contida nos limites usualmente recatados de um diretor de banco central, mas que, por alguma razão, resolveu abrir o bico.
Como professor, tenho interesse especial pelo que é didático e entendo que quem leciona disciplinas ligadas à política monetária deveria discutir essa matéria em classe, para que fosse percebido o enorme desafio de operar essa política em tempos de crise, e ainda por cima, ou por baixo, no Brasil.
O texto também confirma quão importante foi a disponibilidade de grandes reservas em moeda estrangeira para que o BC pudesse enfrentar questões sensíveis como a subida da taxa cambial em reais por dólar. E, também, a necessidade de estabelecer novas linhas de crédito para os exportadores brasileiros, dada a interrupção, pela crise, das que até então utilizavam.
Nesse caso, a lição cabe ao próprio governo Lula, que vive apregoando exageradamente os próprios méritos, sem reconhecer devidamente que sua ação foi enormemente facilitada pelo forte crescimento da economia mundial no quinquênio pré-crise. Este teve como dois de seus impactos mais importantes no Brasil também a aceleração do crescimento econômico e uma acumulação de reservas que lhe deu, de fato como nunca antes neste país, um enorme arsenal para atuar na frente externa. Em quatro décadas de profissão, foi a primeira vez que vi superado um problema que acompanhou o Brasil nesse período, o da "escassez de divisas" e das crises cambiais que trazia de forma recorrente. Lula surfou bem nessa onda externa, mas sem ela teríamos amargado mais uma década perdida em termos de crescimento. E sem reservas adequadas estaríamos novamente no fundo do poço e em cima do colo do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Com a entrevista, que deve continuar repercutindo, Mário Torós tornou-se mais conhecido do público em geral. A matéria enche sua bola com afirmações, dos próprios jornalistas, de que "foi o principal operador do governo na crise", ao lado de atribuir-lhe o papel de "principal macroeconomista do governo", o que deve ter gerado uma ciumeira tremenda no próprio BC e no Ministério da Fazenda. A segunda informação é particularmente discutível, pois Torós é primordialmente conhecido como bom analista e operador financeiro, o que não é pouca coisa. Seria melhor ficar por aí, pois o governo não se destaca pelos seus macroeconomistas, seja lá quem for o principal deles.
Outras afirmações contidas na entrevista, e atribuídas pelos jornalistas a amigos e outras figuras anônimas, demonstram Torós muito contundente quanto ao seu trabalho. Por exemplo: "Comigo não vai ter Marka, FonteCindam, não!" - lembrando o episódio de 1999, quando o BC socorreu esses dois bancos com dólares mais baratos depois de desvalorização abrupta da nossa moeda.
Noutro trecho, falando ele mesmo sobre um ataque especulativo contra o real por um fundo estrangeiro, no início de dezembro de 2008, ao contar como reagiu à investida, afirmou: "Machuquei o mercado inteiro." Com arroubos como esse, e supondo verídicos outros aspectos atribuídos a ele por várias fontes, o entrevistado lembra, até pelo nome, um famoso herói de um clássico videogame, o Super Mario Bros. Observando o nosso Mário, com seus 20 números de telefones, voltando de madrugada para casa em seu Passat Variant, sentindo-se só e no meio de um furacão, depois de exaustivos trabalhos no BC, onde se armava para enfrentar o mercado, a sensação é de que se colocava como a lançar bolas de fogo contra as tartarugas guerreiras que esse mercado mobilizava para atacá-lo.
Na terça-feira, ainda repercutindo o assunto, matéria neste jornal afirmou que no mercado financeiro prevalece a percepção de que Torós usou a entrevista como um balanço de sua gestão e uma forma de mostrar sua importância no enfrentamento da crise. Já para seus ex-colegas do BC, "vender" essa imagem seria importante para... retornar gloriosamente à iniciativa privada. Para a instituição BC, contudo, esses ex-colegas não têm do que se queixar, pois Torós até exagera ao enaltecer o papel da instituição no enfrentamento da crise, não admitindo erros, e deixando o Ministério da Fazenda em segundo plano.
Não tenho a menor ideia de como vai terminar esse novo jogo que Torós iniciou com sua entrevista. Na linguagem a que o BC está tão acostumado, será o mercado que decidirá.
Em qualquer caso, espero que se anime a escrever um livro sobre a experiência que encerra, pois deve ter muito mais a contar. E não apenas sobre sucessos, mas também para se defender de erros atribuídos à política monetária do BC, como o de esperar até janeiro deste ano para, em resposta à crise, iniciar a redução da taxa básica de juros. E, ainda, para esclarecer aspectos que fontes anônimas e os entrevistadores lhe atribuíram nessa matéria do jornal Valor e oferecer uma obra que contenha mais elementos para avaliar melhor seu desempenho no BC.
Roberto Macedo, economista (USP e Harvard), professor associado à Faap, é vice-presidente da Associação Comercial de São Paulo