Título: Lula não quer marola na economia
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Fonte: O Estado de São Paulo, 19/11/2009, Economia, p. B2
A substituição do diretor de Política Monetária do Banco Central (BC), Mário Torós, por Aldo Luiz Mendes se processou sem nenhum trauma, embora a entrevista de Torós ao jornal Valor Econômico tenha revelado a fragilidade das relações entre o ministro da Fazenda e os diretores do BC.
O novo diretor, que só será empossado depois do seu comparecimento ao Congresso, foi uma escolha pessoal do presidente do BC, Henrique Meirelles, que não se abalou com o fato de ele ter sido afastado da vice-presidência do Banco do Brasil pelo atual ministro da Fazenda.
Na véspera, depois de uma longa conversa com o presidente do BC, Lula pediu à equipe econômica para "não fazer marola" na condução da economia. Ele quer que a Fazenda e o BC se mantenham em sintonia fina, lembrando que a prioridade de seu governo é o controle da inflação.
Essa tomada de posição parece ter sido fruto da conversa com Henrique Meirelles, que, seguramente, se ofereceu para ficar na presidência do Banco Central até o final de 2010 e convencer alguns dos seus diretores (Mario Mesquita e Alexandre Tombini) a continuarem com ele, nos respectivos postos, nesse mesmo período.
É um arranjo que, se for realmente mantido, terá consequências importantes, dando tranquilidade ao mercado, que temia uma modificação da política do Banco Central.
Lula, desde o primeiro mandato, teve consciência da necessidade de combater a inflação e ficou convencido de que deveu sua reeleição ao sucesso dessa política. No entanto, não mostra a mesma consciência de que, a prazo médio, a política de relaxamento fiscal do seu governo poderá desencadear novo processo inflacionário. Mas Lula não quer que se adotem medidas sobre as quais não se tenha segurança, suscetíveis de criar ondas de preocupações nos meios empresariais. Está implícito na sua recomendação que a equipe não improvise medidas que nunca foram testadas e cujos efeitos são incertos.
O ministro da Fazenda não parece ter entendido bem esse apelo, ao opinar que a taxa cambial ideal seria de R$ 2,60, quando deveria reconhecer que fracassou sua tentativa de forçar uma desvalorização por meio do IOF de 2%. Ao se referir à taxa ideal, cria um suspense no mercado, que fica imaginando quais medidas seriam tomadas para isso, com repercussões sobre a taxa de inflação e sobre as decisões do comércio, que fixa seus preços em função do custo de reposição.