Título: A fraqueza do dólar
Autor: Ming, Celso
Fonte: O Estado de São Paulo, 15/11/2009, Economia, p. B2

Uma das características das pessoas que levaram muita paulada na vida é achar que sempre são culpadas pelo que acontece de ruim.

As nações que tentam melhorar sua situação econômica, social e política - como o Brasil - também têm essa tendência. Entendem que devem isolar no seu próprio âmbito de atuação tudo quanto de ruim acontece à sua economia.

O problema do câmbio é um pouco assim. Há o aspecto estrutural, que é a ainda não resolvida questão da baixa competitividade do produto brasileiro, que sempre era socorrida artificialmente com fornecimento de "mais câmbio" para o produtor nacional, e não com a redução do chamado custo Brasil. Mas não é disso que se trata aqui. Trata-se do problema imediato, que é a substancial desvalorização da moeda americana diante de praticamente todos os ativos financeiros: moedas, ouro, commodities, etc.

Não são apenas os bancos centrais que administram as moedas fortes que travam uma batalha contra a excessiva desvalorização do dólar. Também os bancos centrais dos países emergentes estão nessa briga inglória.

O ministro de Finanças da Coreia do Sul, Shin Je Yoon, avisou sexta-feira que seu governo vai desistir de impedir a valorização do won e optar por deixá-lo flutuar para evitar o excessivo despejo de moeda nacional no mercado. Apenas neste ano, as reservas do país saltaram de US$ 201 bilhões para US$ 264 bilhões.

O Chile optou pelo aumento da dívida pública para evitar a utilização do patrimônio do seu fundo soberano e, assim, desestimular a especulação que empurra para cima o valor do peso chileno.

O banco central russo também se empenha em segurar o rublo diante do dólar. Suas reservas subiram 15% desde março e hoje estão nos US$ 413 bilhões.

As autoridades americanas, tanto o presidente Barack Obama como o secretário do Tesouro, Tim Geithner, repetem que o objetivo nacional é o fortalecimento do dólar. Mas ninguém acredita em que o governo esteja empenhado em garantir o dólar forte porque não há ajuste possível sem um prolongado processo de desvalorização de sua moeda, para que o produto americano recobre competitividade no mercado internacional e o déficit comercial possa ser zerado.

Isso significa que tão cedo a atual fraqueza do dólar não será revertida. Mesmo que o Federal Reserve (o banco central americano) decida iniciar o enxugamento monetário (alta dos juros) ainda no primeiro semestre do ano que vem, o mundo deverá conviver por muito tempo com um dólar enfraquecido.

Do ponto de vista do Brasil, isso tem consequência. Começa por exigir o reconhecimento de que a maior parte da valorização do real é uma ilusão. É o dólar que se desvaloriza e não o real que se revaloriza.

O diagnóstico corrente de que a derrubada do dólar ante o real é causada pela especulação com juros (tomada de empréstimos a juros baratos lá fora para reaplicar os recursos aqui dentro com juros mais altos) não faz sentido. Não há entrada expressiva de recursos financeiros no Brasil. E isso significa que medidas de contenção da entrada de recursos estrangeiros não conseguirão inverter a tendência de baixa, especialmente quando aumenta, como agora, a percepção externa de que o Brasil é a onda da vez.