Título: Só Deus livra País de novo apagão
Autor: Oliveira, Clarissa
Fonte: O Estado de São Paulo, 14/11/2009, Economia, p. B4

Lula critica "achismo" sobre causas de blecaute, descarta sabotagem e afirma que "o sistema elétrico é robusto"

Sem disfarçar o incômodo com as críticas recebidas pelo governo por causa do apagão que atingiu 18 Estados abastecidos pela Usina de Itaipu, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem que está nas mãos de Deus a possibilidade de um blecaute se repetir no País.

Logo após participar de um congresso em uma universidade da capital paulista, o presidente afirmou que pode garantir apenas que não existe um problema de geração de energia no País.

"Se alguém pergunta para mim: presidente, pode acontecer alguma coisa outra vez? Eu digo: a única chance de não acontecer nada neste País é se Deus quiser que não aconteça", declarou Lula, acrescentando que os brasileiros podem "ter orgulho" do sistema energético do País, descrito por ele como "robusto" e "eficiente".

"A única coisa que eu posso falar em alto e bom som é que o povo brasileiro não terá nenhum problema de falta de geração de energia, porque o Brasil está produzindo mais oferta do que há demanda", completou.

Numa longa entrevista à imprensa, Lula deixou claro que ainda não se convenceu da tese de que a falha no fornecimento teria sido causada por um problema climático.

Ele contou que ouviu de alguns técnicos que um raio poderia ter provocado a falha no abastecimento, enquanto outros teriam argumentado que isso seria insuficiente para paralisar o fornecimento.

Lula queixou-se do "achismo" em torno do episódio. Mas não descartou a possibilidade de ter havido falha humana ou sobrecarga de energia em Itaipu. E pediu que sejam aguardados os resultados definitivos das investigações encomendadas pelo governo.

"Nosso sistema é robusto, é muito bem estruturado. Agora, nada neste mundo pode ser tão estruturado que possa suplantar alguma coisa causada por intempérie ou falha humana, não sabemos ainda", afirmou Lula.

O presidente achou melhor descartar a tese de sabotagem no sistema. " Quem iria querer fazer sabotagem para o País neste momento em que o Brasil está vivendo uma situação tão bonita? Eu não acredito."

Lula teve o cuidado de não minimizar o episódio. Descreveu o blecaute como "uma coisa muito grave", que ainda precisa ser explicada. Mas ponderou que o Brasil está "funcionando corretamente" e aproveitou para brincar com os jornalistas. "Tanto é que vocês estão com essas luzes fortes na minha frente", riu Lula.

Mesmo admitindo que o problema precisa ser apurado, o presidente disse não ver razão para avaliar que se trata de algo "maior do que realmente foi".

POLITIZAÇÃO

Apesar de recorrer ao tom tranquilizador, Lula não perdeu a chance de se queixar da politização do apagão. "Acho que há uma pequena deformação ou incompreensão em tentar fazer qualquer comparação entre a falta de energia que houve e um apagão por falta de geração de energia. Tenho visto pessoas na televisão até com ar de satisfação porque aconteceu um apagão", reclamou Lula.

Ele chegou a comparar as críticas que o governo recebeu nos últimos dias à repercussão provocada pelo acidente ocorrido com um avião da TAM em 2007, no Aeroporto de Congonhas.

"Tenho notado algumas pessoas falando do apagão com o mesmo prazer que falavam culpando o governo quando com o avião da TAM", emendou o presidente, que reservou parte das críticas para a imprensa. Na época, disse ele, "escreveram na primeira página que o governo iria carregar 200 mortos nas costas". "Até que a verdade foi aparecendo."

Lula evitou mencionar diretamente líderes da oposição, que nos últimos dias cobraram explicações do governo. No dia seguinte ao apagão, o governador de São Paulo, José Serra, cotado para disputar a sucessão presidencial no ano que vem, disse que o sistema se mostrou "vulnerável".

O governador mineiro, Aécio Neves, também apontado como opção do PSDB para o Planalto, falou em "inibição de investimentos". Mas ambos evitaram levar a polêmica para a esfera política.

Outros tucanos foram mais incisivos. O líder do partido na Câmara, deputado José Aníbal (SP), preferiu ironizar o fato de a chefe da Casa Civil e presidenciável petista, Dilma Rousseff, ter dito há algumas semanas que a construção de novas hidrelétricas acabaria com o risco de apagões no País.

Questionado se avalia que a oposição age de forma oportunista, Lula devolveu: "Eu não disse que era a oposição. São pessoas que vocês entrevistam. Vocês é que sabem quem são".

O presidente continuou dizendo que os jornalistas deveriam procurar especialistas para tratar do assunto, e não oposicionistas. "Este não é um assunto de análise política, é de análise técnica. É sobretudo o assunto de engenharia muito específica." Indagado se o apagão prejudica a imagem do governo na véspera do ano eleitoral, ele fez uma longa pausa, sem tirar o sorriso do rosto, e arrematou: "Tem gente que gostaria".