Título: Em visita ao Irã, Amorim pede que diálogo continue
Autor: Marin, Denise Chrispim
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/12/2009, Internacional, p. A13

Reunido com Ahmadinejad em Isfahan, chanceler do Brasil exorta iraniano a manter negociações com AIEA

Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva dizia ontem, em Berlim, que a Rússia e os EUA não têm "autoridade moral" para exigir que o Irã não produza armas nucleares, o chanceler Celso Amorim conversava com o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, em Isfahan, terceira maior cidade do país e um dos centros do programa nuclear iraniano. Amorim levou a Teerã a preocupação do governo brasileiro com o possível abandono das negociações com as grandes potências e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

Embora a viagem tenha constado na agenda de Amorim, o Itamaraty se fechou ontem a qualquer informação adicional. Sua assessoria se limitou a explicar que o chanceler daria continuidade a "toda a pauta de conversas" mantidas entre Lula e Ahmadinejad em Brasília, no último dia 23.

Boa parte dessa pauta girou em torno da questão nuclear. Em especial, pela tentativa do presidente brasileiro de convencer o iraniano a manter o diálogo sobre o Acordo de Viena, que possibilitaria a troca de urânio de baixo enriquecimento do Irã por combustível nuclear vindo do Ocidente, ação que dificultaria o desenvolvimento de armas atômicas.

Com medo de não receber o combustível, Ahmadinejad anunciou em Brasília uma contraproposta: estocar sua reserva de 1.200 quilos de urânio enriquecido na ilha Kirsch e enviar lotes de 400 quilos do produto cada vez que recebesse combustível para o reator, que produz radiofármacos.

Anteontem, o presidente iraniano advertiu publicamente que seu país não aceitará as condições impostas pelo sexteto - formado por EUA, França, Alemanha, Grã-Bretanha, Rússia e China - e vai enriquecer urânio a 20%. "Se nos derem combustível, aceitaremos. Caso contrário, podem ir embora."

Conforme adiantou o próprio Amorim anteontem, em Genebra, é "preciso manter o diálogo" entre o Irã e o Ocidente. Outra tarefa do chanceler em Isfahan seria desfazer o constrangimento causado pelo anúncio de que a Petrobrás deixaria seus investimentos no Irã, feito poucos dias antes da visita de Ahmadinejad ao Brasil. Amorim deve viajar a Teerã no início de 2010 para preparar a visita oficial do presidente Lula ao país.

BRASIL E IRÃ

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