Título: Mexida no câmbio deve demorar
Autor: Fernandes, Adriana
Fonte: O Estado de São Paulo, 03/12/2009, Economia, p. B8
Mantega se diz satisfeito com a taxação de IOF sobre capital externo para tentar deter valorização do real
Em meio ao debate no Brasil e no mundo sobre o risco de formação de uma bolha especulativa no mercado acionário, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse ontem ao Estado que está satisfeito com as medidas cambiais já adotadas pelo governo. Segundo ele, essas medidas permitiram dar maior "consistência" à bolsa de valores brasileira.
O ministro afirmou que "do ponto de vista do Ministério da Fazenda" as principais medidas para conter a excessiva valorização do real e volatilidade da taxa de câmbio já foram tomadas - como a cobrança do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) no investimento externo no mercado de ações e renda fixa. Ele sinalizou que as outras medidas em estudo pelo Banco Central para liberalizar o mercado cambial no País poderão levar mais tempo para serem adotadas.
Segundo Mantega, as medidas que faltam serem adotadas pelo BC não têm impacto imediato e "só sairão do papel quando forem detalhadamente estudadas". "As principais medidas cambiais são essas que já foram tomadas. As outras medidas cambiais são de caráter de liberalizar o mercado cambial, como, por exemplo, permitir uma aplicação maior de fundos brasileiros no exterior. Apenas isso", disse Mantega, em entrevista por telefone da Alemanha, onde participa de viagem oficial.
Ao ser questionado se as medidas do BC seriam anunciadas até o fim do ano, o ministro respondeu: "Não sei. Quem está estudando esse tipo de medida é principalmente o Banco Central. Do ponto de vista da Fazenda, eu estou satisfeito com as medidas que nós tomamos e com a sua repercussão positiva. Elas atingiram os objetivos."
Para Mantega, a cobrança do IOF na entrada de capital externo e nas emissões de DRs (títulos representativos de ações brasileiras negociados no exterior) diminuíram a volatilidade da taxa de câmbio.
"Também deu mais consistência à bolsa de valores", disse.
Nos últimas semanas, Mantega e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, têm feito advertências contra práticas especulativas do mercado. O prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman, professor da Princeton University nos Estados Unidos, também avaliou que o atual fluxo de capitais para o Brasil é "uma bolha" (ler mais na pág. B9).
Mantega negou a intenção de proibir empresas brasileiras de emitir DRs na Bolsa de Nova York, as chamadas ADRs. Ele disse que esse mercado é importante para o País.
"Eu sou favorável à colocação de ações brasileiras em Nova York porque elas ajudam a captar mais recursos para o País e a valorizar as ações brasileiras", disse. "Tanto é verdade que o Banco do Brasil está inscrevendo ADRs, em Nova York, com o pleno consentimento do governo."
O ministro observou que a decisão do governo de cobrar IOF também sobre ADRs teve o objetivo de dar condições igualitárias aos aplicadores no mercado doméstico. "Foi apenas essa a nossa intenção. Equilibra o jogo entre a atuação do mercado doméstico e Nova York."