Título: Carrasco da guerra suja vai a julgamento
Autor: Palácios, Ariel
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/12/2009, Internacional, p. A20
Ex-capitão Astiz é acusado de assassinatos, torturas e sequestros durante o período da ditadura na Argentina
O julgamento do ex-capitão Alfredo Astiz deve começar hoje na Argentina. Conhecido por suas vítimas como o "anjo loiro da morte", ele é acusado de ter cometido sequestros, torturas e assassinatos de civis durante a ditadura militar (1976-1983). Serão julgadas também outras 18 pessoas que teriam trabalhado com ele na Escola de Mecânica da Armada (Esma), o maior centro clandestino de tortura do regime militar.
Astiz era uma das estrelas da Esma, já que as missões mais complexas eram encomendadas ao jovem oficial pela alta hierarquia militar. Estima-se que 5 mil prisioneiros civis passaram por lá, dos quais sobreviveram menos de 170. Cerca de 280 testemunhas comparecerão ao tribunal, em um julgamento que, segundo fontes ouvidas pelo Estado, poderia prolongar-se por um período de seis meses a um ano.
Entre os outros ex-militares que serão julgados estão Alfredo Donda Tigel - que sequestrou o próprio irmão e a cunhada, os assassinou e ficou com suas filhas -, e Jorge "El Tigre" Acosta, famoso por estuprar as prisioneiras.
Astiz é considerado um dos membros da ditadura com o perfil psicológico mais intrincado. "Ele tinha absoluta certeza de que estava destinado a grandes missões em sua vida", disse Miriam Lewin, ex-prisioneira de Astiz. Sara Osatinsky, outra sobrevivente, relatou que o centro da vida de Astiz era a escola: "Uma vez ele saiu de férias, mas voltou quatro dias depois, pois havia descoberto que não podia compartilhar suas atividades com os amigos. Por isso passou o resto de suas férias na Esma, conosco."
Astiz foi responsável pelo assassinato de três fundadoras do grupo Mães da Praça de Maio, entre elas, Azucena Villaflor. Ele também é requerido por vários tribunais na Europa.
Na Itália, ele foi acusado de ter sido o autor do desaparecimento de três cidadãos italianos em território argentino durante o regime militar. Em 1990, a Justiça francesa condenou o ex-capitão - à revelia - à prisão perpétua pela morte de duas freiras. Astiz também é procurado pela Justiça da Suécia. As duas freiras foram sequestradas em uma operação planejada por Astiz, que com suas suas feições de "menino bem comportado" infiltrou-se na organização Mães da Praça de Maio fazendo-se passar pelo irmão de um desaparecido. A cara ingênua de Astiz convenceu as mães, que somente perceberam quem ele era tempos depois. Sob este disfarce, Astiz recolheu informações e decidiu que as duas religiosas deveriam ser eliminadas.
Protegido pela cúpula militar, Astiz foi recompensado por seus serviços durante o período mais intenso de repressão com o cargo de governador das ilhas Geórgias durante a Guerra das Malvinas, em 1982. Mas essas ilhas foram o primeiro ponto recuperado pelos britânicos durante o conflito bélico. Após um único tiro de bazuca disparado pelos britânicos, Astiz desistiu de resistir. Ele foi beneficiado em 1986 e 1987 com as leis de perdão aos militares (leis de Ponto Final e de Obediência Devida).