Título: Copom mantém Selic em 8,75% e indica juros estáveis nos próximos meses
Autor: Nakagawa, Fernando
Fonte: O Estado de São Paulo, 10/12/2009, Economia, p. B12

Comunicado diz que a capacidade ociosa da indústria está diminuindo, mas com cenário de inflação ainda "benigno"

O Banco Central anunciou na noite de ontem a manutenção do juro básico da economia, a taxa Selic, em 8,75% ao ano. Na última decisão de 2009, o Comitê de Política Monetária (Copom) reconheceu em comunicado que a capacidade ociosa da indústria está sendo gradualmente ocupada, mas que, por enquanto, o juro está em patamar adequado com a meta de inflação. O texto divulgado após o encontro diminui a chance de um aumento do juro já nos primeiros meses de 2010.

Para explicar a decisão unânime, os diretores do BC afirmam que a manutenção da Selic levou em conta a "flexibilização da política monetária implementada desde janeiro, e por outro, a margem de ociosidade remanescente dos fatores produtivos". Diante desse quadro, o Copom "avalia, neste momento, que esse patamar de taxa básica de juros é consistente com um cenário inflacionário benigno". Na avaliação da autoridade monetária, o juro atual contribui para "assegurar a manutenção da inflação na trajetória de metas e para a recuperação não inflacionária da atividade econômica".

"O termo "remanescente" do texto mostra que o BC reconhece que a ociosidade dos fatores de produção existe, mas está sendo gradualmente ocupada. Por outro lado, o Copom usou a expressão "neste momento" para tratar do patamar dos juros, o que indica que eles também reconhecem que vai haver mudança da Selic em algum momento", diz a economista-chefe do Banco Fibra, Maristela Ansanelli. Para ela, o texto reforça sua aposta de que a Selic só deve subir em meados de 2010.

"A aceleração da atividade da economia tem sido rápida, mas ainda não pressiona os preços porque há ociosidade na indústria. Por isso, não há motivos para mudar o juro", argumenta a economista. Para ela, o aperto monetário será inevitável a partir de meados no próximo ano porque a economia estará crescendo com taxas expressivas e, ao mesmo tempo, a produção na indústria estará caminhando para o limite. "Como o BC vai passar a olhar para o cenário de 2011, não vai ter muito jeito e o juro terá de subir".

O aperto monetário esperado para 2010 deve acontecer em duas etapas, dizem os analistas. Inicialmente, a autoridade monetária deve reduzir a oferta de dinheiro no mercado com o aumento do porcentual do dinheiro dos bancos que deve ser depositado no próprio BC, o chamado depósito compulsório. A medida vai retirar parte do incentivo concedido pela própria instituição no auge da crise e, ao mesmo tempo, vai começar a encarecer o custo do dinheiro disponível que é usado para conceder crédito.

Depois, o BC deve começar um processo gradual de aumento dos juros. As apostas variam, mas há consenso de que a taxa deve subir pelo menos dois pontos porcentuais no decorrer de 2010. Analistas mais otimistas, cujas previsões de expansão da economia estão mais próximas de 6%, acreditam que o juro pode começar a subir em março ou abril. Já os que preveem crescimento perto de 5%, acham que a Selic deve avançar no meio do ano, em junho ou julho.

Essa foi a primeira reunião com a participação do novo diretor de política monetária, Aldo Luiz Mendes. O antigo vice-presidente do Banco do Brasil assumiu o lugar de Mário Torós que deixou a instituição após revelar à imprensa detalhes sobre a estratégia do BC no período mais agudo da crise financeira no fim do ano passado e primeiros meses de 2009.