Título: Era Pinochet influencia voto
Autor: Costas, Ruth
Fonte: O Estado de São Paulo, 14/12/2009, Internacional, p. A10
Mas questões atuais devem dominar segundo turno
Um dos maiores colégios eleitorais da capital chilena foi instalado em um local emblemático: o Estádio Nacional. Suas enormes dependências, onde milhares de pessoas votavam ontem, celebrando o que é uma das democracias mais estáveis da região, serviu como um dos centros de detenção e execução de presos políticos durante a ditadura. Estima-se que 40 mil chilenos tenham sido torturados no local.
"Não dá para entender como há gente que possa confiar na direita depois do que aconteceu aqui", disse Dario Rojas, técnico em informática de 56 anos, após votar no Partido Comunista. "Se a direita assumir o poder, teremos um novo desastre na história chilena", completou o professor Jorge Aqui, de 55 anos, preso um mês após o golpe de 1973 e solto mais de dois anos depois.
O trauma cindiu o Chile por muitos anos e condicionou a política do país na era pós-Pinochet. Hoje, ainda há uma fatia grande da população que, como Dario e Jorge, define seu voto com base nesse período da história e em antigas afinidades ideológicas. Mas o fiel da balança para o segundo turno, de acordo com os analistas, serão os eleitores que querem respostas para questões práticas: mais crescimento, trabalho e melhores políticas para a educação e a saúde.
Até agora, a direita parece levar vantagem ao fazer promessas nessas áreas e explorar o desgaste e as divisões provocados pelos 20 anos de governo da Concertação. "Precisamos de ajuda para a classe média. Não podemos ficar discutindo esse passado, de fato doloroso. Temos de olhar para o futuro", diz o vendedor Ricardo Saldias, de 49 anos, que já votou para a Concertação, mas agora preferiu o conservador Sebastián Piñera.
Considerado um empresário bem sucedido, Piñera apropriou-se da agenda da esquerda no que diz respeito às questões sociais e promete eficiência administrativa. A ânsia por novas propostas também fica evidente no fato de o candidato independente (e dissidente da Concertação) Marco Enríquez-Ominami ter dividido os votos da esquerda nesse turno.
A professora Carmen Escobar, de 36 anos, que foi votar no mesmo colégio eleitoral da presidente Michelle Bachelet, se diz fiel à Concertação. "Compartilho suas ideias sobre o papel do Estado no desenvolvimento", diz. Então vota pelo governista Eduardo Frei? "No segundo turno, sim, para a direita não chegar ao poder. Agora voto em Ominami, porque Frei já teve sua chance quando foi presidente nos anos 90."