Título: Corte deve custar US$ 166 bi ao País
Autor: Paraguassú, Lisandra
Fonte: O Estado de São Paulo, 17/12/2009, Vida&, p. A26

Maior parte dos recursos será usada na construção de usinas hidrelétricas; ministra Dilma rejeitou financiar fundo

Financiar as metas brasileiras de redução das emissões de CO2 vai custar ao País US$ 166 bilhões (R$ 282,2 bilhões) nos próximos 10 anos, disse ontem a ministra da Casa Civil, Dilma Roussef. A maior parte dos recursos será usada para construir usinas hidrelétricas, para garantir a manutenção de fontes renováveis de eletricidade.

Os números são uma conta preliminar. Não entraram na soma, por exemplo, os custos para evitar o desmatamento no Cerrado, que faz parte do cálculo para que o País reduza em 39% a projeção de emissões para 2020. Dos recursos, entre US$ 110 bilhões e US$ 113 bilhões devem ir para a construção de hidrelétricas - a maior parte dessas obras está no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Outros R$ 32 bilhões vão para a agricultura, com ações de plantio direto e recuperação de áreas degradadas. Conter o desmatamento na Amazônia precisará de US$ 21 bilhões. Hoje, tudo está na conta do governo federal. "Por isso precisamos de financiamento externo. Não é nenhum pecado", afirmou a ministra Dilma.

Ontem, Dilma rejeitou nova proposta para formatação do fundo global de financiamento para mudanças climáticas que não foi apresentada oficialmente ao Brasil, mas é tratada nos bastidores da COP-15. Países desenvolvidos propõem que 25% do dinheiro do fundo venha de seus recursos, 55% de um mercado de carbono e o resto, "a ver" - traduzindo, dos emergentes. "Se for 55% de recursos de mercado, não se faz adaptação. Adaptação é basicamente para países muito pobres. É para zonas desérticas na África, para as pequenas ilhas que podem desaparecer, nada que interesse ao mercado", disse.

O fundo precisa de recursos públicos, na visão dela. O problema, admite, é que existem poucas propostas e a maioria se baseia no mercado de carbono, algo que não atende a maior parte dos países mais pobres. "Recursos precisam ser previsíveis e 55% de financiamento de mercado não é previsível. Não há como fazer investimentos de 10, 15 anos sem previsibilidade."

Uma das apostas dos negociadores brasileiros é arrancar uma promessa de mais recursos dos EUA. Para o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, pode ser mais fácil os americanos se comprometerem com mais dinheiro do que com uma meta maior. "Nossa esperança era que a boa vontade da UE para trazer os americanos a bordo se traduzisse em uma meta maior dos EUA." Agora, Minc teme que ocorra o contrário.

Os ministros repetiram que o Brasil não pretende colocar recursos no fundo. Respondendo à ideia da senadora Marina Silva e do governador José Serra de que o País deveria colaborar com pelo menos US$ 1 bilhão, Dilma apresentou as contas de quanto o País investiu na América Latina e na África. Segundo ela, o País financia hidrelétricas com juros especiais, transfere tecnologia de etanol e repassou parte dos recursos recebidos da Noruega pelo Fundo Amazônia para os vizinhos. Na soma, seriam US$ 5 bilhões.

TROCA DE GENTILEZAS

Após dias de estranhamentos públicos, Dilma e Minc pareciam ter acertado os ponteiros, ao menos para o público externo. Durante entrevista, entre gentilezas, os dois praticamente fizeram um jogral para apresentar o andamento das negociações no primeiro dia do presidente Lula em Copenhague. Dilma fez um esforço para deixar o colega falar e Minc tentou controlar sua tendência de interromper a toda hora.

IMPASSES

Para chegar a um acordo, os países precisam concordar sobre o papel de cada grupo de nações: as industrializadas e as em desenvolvimento - essas, por sua vez, divididas em emergentes e vulneráveis

Ricos e pobres fazem um jogo de empurra-empurra. Os países industrializados querem que os emergentes - Brasil, China e Índia - tenham metas vinculantes, e não apenas voluntárias, de cortes de emissão de CO2. Os emergentes, por sua vez, argumentam que o Protocolo de Kyoto, de 1997, exige redução apenas dos desenvolvidos - a taxa de corte acordada na época foi de 5,2% das emissões até 2012

Os países industrializados tentam impor barreiras a repasse de recursos de mitigação aos emergentes para beneficiar apenas os mais vulneráveis. Os emergentes argumentam que, sem ajuda financeira, dificilmente conseguirão atingir suas metas