Título: Não há espaço para nova operadora
Autor: Cruz, Renato
Fonte: O Estado de São Paulo, 21/12/2009, Economia, p. B9
Presidente da Vivo afirma que venda de licença para quem não está no mercado traria ineficiência ao setor
A Vivo, maior operadora celular do País, ultrapassou em novembro a marca de 50 milhões de clientes. Roberto Lima, presidente da operadora, afirmou que, para continuar crescendo e, ao mesmo tempo, ampliar a cobertura para cidades menores, é preciso que a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) leiloe mais espectro (faixa de frequência que uma empresa pode usar). Na semana passada, a agência pôs em consulta pública as regras para a venda da chamada banda H, de terceira geração da telefonia celular (3G), que limitam a participação no leilão a empresas que ainda não operam o serviço. Entre outros pontos, Lima explica, na entrevista que segue, o motivo de ser contra essa limitação.
Qual é a sua opinião sobre a proposta do leilão?
A Anatel parte do princípio de que a qualidade e o preço baixo serão obtidos através do estímulo à concorrência, com que eu concordo totalmente, até um certo limite, que é o limite da eficiência. Num país das dimensões do Brasil, as empresas que atuam no setor precisam ter escala - e espectro é a base para que uma empresa de telefonia móvel possa ter tamanho. O preço, até certo ponto, depende da concorrência, mas chega num ponto em que ele para, e só volta a ser reduzido em função da eficiência. Acho que estamos num momento em que existem quatro empresas de dimensão nacional, que começam a ter uma escala muito grande, e que, se forem dotadas de espectro suficiente, podem ter uma racionalização muito maior nos seus investimentos e isso vai se refletir no preço. Colocar uma quinta empresa é fragmentar um ativo raro e caríssimo, que é o espectro, para colocar mais uma empresa na mesma posição de baixa escala. Não sei se isso é eficiente. Acho que uma quinta empresa será mais uma para reclamar que falta espectro e que a carga tributária é elevada.
Qual é a sua expectativa de investimento para 2010?
Não posso divulgar o pacote de investimento sem fazer um comunicado público, porque somos uma empresa cotada em Bolsa de Valores. Por causa da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), temos de fazer um fato relevante. Mas vamos fazer, como todo ano fazemos, lá por fevereiro.
A expectativa para este ano foi cumprida?
Foi. Tínhamos um pacote de investimento de R$ 2,6 bilhões. Estamos próximos disso. O que tinha de ser contratado já foi.
Ainda tem muita rede de 3G para ser instalada?
Tem uma demanda muito grande. Parte dos investimentos foram feitos em função dos compromissos com a Anatel quando da licitação das frequências. O que eu posso dizer é que, entre 2G (segunda geração) e 3G, fizemos 242 municípios, tudo o que tínhamos de cobrir, e fizemos mais 217 municípios, além do que era obrigação da Anatel. Desses 217, 60 são antecipações de 2010. A diferença de 157 são áreas novas para a gente.
Vocês identificaram demanda?
Sempre existe demanda, maior ou menor, em qualquer lugar do Brasil. A necessidade é maior naquelas regiões onde a gente acha que têm menor potencial econômico, mas que o impacto do nosso serviço é muito maior. Temos um projeto em Belterra, uma cidade de 12 mil habitantes no oeste do Pará, que vive hoje de uma cultura extrativista, com uma atividade econômica baixa, mas tem uma demanda muito grande por uma questão social, não é por uma questão econômica. As pessoas precisam daquela comunicação, sem o que, muitas vezes, elas não conseguem viver. As comunidades ribeirinhas estão distantes uma das outras muitas vezes entre 30 e 40 quilômetros, sem atendimento médico na dimensão que eles precisam. Chamar alguém é muito importante. Não é por causa do potencial econômico, mas da necessidade que existe na região.
Como fica o retorno econômico em uma cidade como Belterra?
Temos de pensar que as telecomunicações são um elemento de desenvolvimento econômico e social. Se a região já é economicamente desenvolvida, o investimento que fazemos começa a produzir um retorno a partir do primeiro momento. O retorno pode acontecer em dois ou três anos. Se não tem ainda o desenvolvimento econômico, o próprio fato de levarmos comunicação faz com que aquela região comece a se desenvolver economicamente. Pode demorar um pouco mais, mas virá. Belterra é uma das boas experiências que nós temos.
Vocês começaram quando?
Oficialmente, foi dia 26 de novembro, mas a antena está ligada desde 12 de novembro. Embora na cidade não houvesse telecomunicações móveis, já existiam pessoas com aparelho. Quando eles se deslocam a Santarém ou a Manaus, acabam usando os aparelhos delas. E agora elas têm na cidade. O fato de terem na cidade deles permite um uso regular.
Como deve ficar a ampliação da cobertura em 2010?
Não posso falar para não dar ideia de quanto vamos fazer de investimento, mas já estamos terminando 2009 com 3.960 municípios. A gente tem quase quatro ou cinco novos municípios por semana. Chegamos a ter 10 municípios a mais numa semana em que chove pouco. Vamos terminar com quase 4 mil municípios. Um dia todos os municípios estarão cobertos. Mas não para aí. O indicador de cobertura hoje, de acordo com a Anatel, é população urbana. Mas existe uma necessidade tão grande, ou até maior, na periferia das cidades, que é onde não existe uma oferta de telefonia fixa nem telefonia rural. Com o desenvolvimento do agronegócio no Brasil, é preciso estar fora dos centros urbanos, nas regiões rurais, nas estradas, em todos os lugares. No Brasil, falar de investimento em cobertura é assunto para mais 10 ou 15 anos.
Ano que vem o investimento pode ser menor que este ano?
Eu não acho que a gente vá fazer menos no ano que vem. Em termos de cobertura, acho que vamos manter o ritmo.
Como está o crescimento da banda larga móvel?
Está indo muito bem. Só a Vivo está vendendo 120 mil modems (equipamentos para ligar o notebook à rede) por mês, e um outro tanto de telefones com capacidade de acesso à internet. Existe uma demanda muito forte. Isso traz uma necessidade de cobertura cada vez maior, e principalmente uma necessidade de aumento de capacidade da rede. O uso de internet hoje é muito diversificado. Muito se passa em torno de conteúdos visuais, filmes, iTunes, e coisas desse tipo, que exigem muita rede. Essa é a nossa preocupação, porque, por mais que a gente possa aumentar a capacidade de rede, fazendo investimentos, tem um limite para isso, se a faixa disponível de espectro for pequena. O grande problema para o Brasil resolver hoje é a alocação do espectro para o sistema móvel pessoal. O Brasil é um país que, com todos os problemas que está enfrentando em infraestrutura, seja no setor de aeroportos, portos e estradas, deveria evitar, a partir da alocação de espectro, que tenhamos um problema na área de comunicação.
Quando vocês precisariam de mais espectro?
Já. Todo espectro que temos disponível deveríamos colocar. Quando você não tem espectro, tem de fazer o chamado adensamento, colocando mais antenas. Mas essas antenas a mais que eu estou colocando aqui em São Paulo, para aumentar a capacidade, eu poderia estar colocando em Mujuí, que é ao lado de Belterra, e melhorando a qualidade de vida das pessoas. O adensamento é um investimento que se justifica economicamente, porque vou gerar mais tráfego na cidade, mas que é socialmente perverso.
Quem é: Roberto Lima
Formado em Administração pela FGV, com pós-graduação pela mesma instituição e pelo Institut Supérieur des Affaires (França).
Foi presidente do Grupo Credicard e trabalhou na Rhodia, Grupo Accor e Saint Gobain.