Título: Risco de inflação faz BC sinalizar alta de juro
Autor: Marin, Denise Chrispim ; Nakagawa, Fernando
Fonte: O Estado de São Paulo, 23/12/2009, Economia, p. B3
Relatório do Banco Central projeta expansão de 5,8% do PIB em 2010
Mais otimista que o próprio Ministério da Fazenda, o Banco Central (BC) projetou um crescimento econômico de 5,8% para 2010, sustentado exclusivamente na demanda interna brasileira, conforme o Relatório de Inflação do quarto trimestre, divulgado ontem.
A perspectiva de maior impulso no Produto Interno Bruto (PIB), entretanto, veio acompanhada pelo alerta reiterado oito vezes de que o Banco Central agirá "preventivamente" contra uma alta de preços que possa ser provocada por um aquecimento excessivo da economia.
No relatório, considerando as condições atuais da taxa de câmbio e juros, o BC projeta uma inflação de 4,6% em 2010 - porcentual ligeiramente acima do centro da meta fixada pelo governo, de 4,5%, e da previsão de 4,4% do relatório de setembro. "As autoridades sempre devem ter em mente que prevenir é melhor que remediar, porque a inflação tem persistência maior em nosso País", afirmou o diretor de Política Econômica do BC, Mário Mesquita.
"A expectativa de que o BC atuará para trazer a inflação para a meta é correta. Mas sobre os instrumentos que vai utilizar não posso me pronunciar", completou, ao ser confrontado com o fato de que o mercado futuro de juros já aposta na elevação da taxa básica, a Selic, em 2010.
Analistas consultados nas últimas semanas previram o aumento da Selic a partir de abril de 2010. Nesse caso, dada a defasagem normalmente verificada entre a alta dos juros e seus efeitos em termos de segurar a inflação, o impacto começaria a ocorrer apenas no fim do próximo ano ou início de 2011.
As enfáticas declarações de Mesquita sobre o compromisso do BC de manter a inflação nas rédeas, mesmo em um ano de eleições e de inusitada expansão da produção, do emprego e do consumo, de certa maneira reavivaram a incerteza sobre o momento em que o BC acionará o freio da economia.
O cenário positivo traçado pelo BC para o último ano do mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem como base a manutenção das taxas de juros, de 8,75% (Selic), e de câmbio, de R$ 1,75 por dólar. Na sua formulação, os diretores do BC ignoraram o "calendário cívico" de 2010 - termo usado por Mesquita para se referir às eleições - e a eventual mudança do comando da casa, com a saída de Henrique Meirelles. Espartano, Mesquita procurou não mensurar o impacto da ampliação de gastos públicos em 2010 nas estimativas de inflação.
Em 2010, o crescimento de 5,8% da atividade econômica se dará em função da retomada do setor agropecuário, com expansão de 3,7%, e, principalmente, da continuidade da ampliação da produção industrial, de 7,6%, e dos serviços, de 5,0%.
Na área industrial, a construção civil deverá crescer 6,4%, estimulada por investimentos no setor e pelas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O mercado exterior terá pouco impacto.
O Relatório de Inflação prevê ainda que, em dezembro de 2010, o desemprego deverá alcançar 6,5% e, na média do ano, se acomodará em 7,8% - uma taxa em linha com o desempenho de 2009. O consumo das famílias terá expansão de 6,1%, alimentado pela preservação do desemprego, pela elevação de postos formais de trabalho, pela proteção social e previdenciária e pela oferta de crédito.
Conforme frisou Mesquita, a demanda doméstica deverá representar 7% do PIB e será um indicador "permanentemente monitorado."
Nesse ponto, o cenário, que se apresenta tão positivo para a população em geral, se transforma em dilema para o BC. A elevação do consumo poderá desencadear inflação de demanda em 2010 e fazer com que o Brasil retome seu velho dilema do gargalo do crescimento. Os próprios dados do Relatório de Inflação assinalam que em 2010 o investimento na capacidade produtiva do País aumentará 15,8%, porcentual considerado baixo demais para alavancar um crescimento sustentado da economia de mais de 5% no ano.
O documento também ressalta um dado pinçado da Sondagem Conjuntural, da Fundação Getúlio Vargas, que mostra que o estoque da indústria de transformação "chegou ao fim" em outubro de 2009.
Essa situação atinge especialmente os segmentos da economia beneficiados por redução de tributos, como o Imposto sobre Produtos Industrializados, e facilidades de crédito desde o auge da crise. A diluição desse gargalo depende de mais investimento.
Na projeção do BC, o investimento estrangeiro direto deverá atingir US$ 45 bilhões em 2010.