Título: O resgate e a reconstrução
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 27/01/2010, Notas e informações, p. A3

A reunião preparatória para a conferência sobre o futuro do Haiti, realizada segunda-feira em Montreal, no Canadá, com a participação de autoridades de uma vintena de países e representantes de organizações multilaterais, deixou claro que a comunidade internacional pelo menos está atenta para evitar um imenso equívoco: concentrar esforços exclusivamente nas demandas imediatas do país devastado, e só quando estiverem minimamente satisfeitas pensar na sua reconstrução. Primeiro, porque até onde vai a vista, o desafio de prover socorro e segurança à população flagelada, numa situação de miséria extrema, caos social e virtual inexistência de Estado, exigirá um tempo que nem sequer pode ser estimado a esta altura. A distribuição de alimentos, por exemplo, ainda é errática. As equipes médicas estão no limite de suas forças. Na Cité Soleil, a maior favela de Porto Príncipe, a fome e a sede convivem com o pavor das gangues de novo em atividade.

Em segundo lugar, porque a destruição do pouco que havia de infraestrutura na capital impõe um limite intransponível à efetividade da ajuda humanitária. Terceiro, mas não menos importante, sendo as coisas como são, a generosidade estrangeira tem de ser canalizada com rapidez para fazer do Haiti um país antes que o mundo passe a olhar para o outro lado. O problema, a rigor, não é apenas dinheiro, conquanto obviamente essencial. É saber o que fazer, quem fará o que e sob quais regras. A arquitetura institucional requerida terá de ser inventada: o caso haitiano não tem precedentes pela escala da catástrofe, a sua concentração geográfica, o vácuo administrativo e a dizimação das equipes externas de cooperação civil e militar baseadas em Porto Príncipe - voluntários de ONGs, técnicos de agências de fomento, especialistas em gestão pública e as forças da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah), sob comando brasileiro.

Uma das perguntas da hora é se faz sentido manter o mandato original da missão criada pelo Conselho de Segurança da ONU em 2004 para combater a violência política e criminal no país e assegurar a realização de eleições presidenciais livres em 2006. Mesmo antes da catástrofe, a tendência do Brasil era de envolver cada vez mais a Minustah em programas de serviços sociais e de infraestrutura. Dias atrás, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, disse que o governo brasileiro poderia propor que a agenda do órgão passasse a incluir a reconstrução do Haiti. Já o chanceler Celso Amorim acha que "a mudança de mandato não é a coisa mais urgente nesse momento". Urgente, de todo modo, é o fim das picuinhas entre o Brasil e os Estados Unidos. No fim da semana passada, "para marcar posição", o general Floriano Peixoto, comandante-geral da Minustah, montou uma operação de distribuição de cestas básicas em frente ao que resta do palácio presidencial haitiano, cujos jardins foram transformados pelos americanos em campo de pouso para os seus helicópteros de transporte de víveres.

Nem uns, nem outros se deram ao trabalho de avisar antes o pessoal da ONU em Porto Príncipe, responsável pela coordenação da ajuda. E a zanga do ministro Amorim com o uso do termo "Plano Marshall" para o soerguimento do Haiti - de birra, ele passou a falar em Plano Lula - é outra puerilidade. Brasília e Washington pelo menos fazem a mesma expressão corporal de respeito aos haitianos. Perguntada quem "dirigirá o ônibus da reconstrução", a secretária de Estado Hillary Clinton respondeu de bate-pronto: "O governo do Haiti." E Amorim: "O ônibus precisa ser dirigido por um haitiano." Não poderia ser de outra forma - afinal, o país existe como ente soberano e tem, nominalmente, um governo. Mas a rota do ônibus será traçada em conjunto pelos chamados "países doadores", cuja conferência começou a ser preparada em Montreal. Brasil e Estados Unidos têm ambições concorrentes. Um aspira a um novo papel global. O outro, além de tudo, tem um presidente que precisa mostrar ao mundo que faz jus ao Prêmio Nobel da Paz.

Se a reconstrução ficar a cargo de uma agência especial de desenvolvimento, talvez em parceria com o Banco Mundial, há quem sugira que ela seja chefiada, primeiro, pelo enviado da ONU para o Haiti, o ex-presidente Bill Clinton; depois, quando também for um ex, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.