Título: Manifestações deixam 2 mortos; multidão cerca emissora chavista
Autor: Lameirinhas, Roberto
Fonte: O Estado de São Paulo, 27/01/2010, Internacional, p. A14

Venezuelanos mobilizam-se contra e a favor das medidas anunciadas por Chávez, aumentando a tensão no país

Os protestos estudantis contra a saída do ar da emissora Rádio Caracas Televisión (RCTV) causaram entre segunda-feira à noite e ontem duas mortes em Mérida, oeste da Venezuela, informou o governador do Estado, Marcos Díaz, chavista. Uma das vítimas, identificada como Yorsinis Carrillo Torres, de 15 anos, recebeu um tiro no peito quando participava de uma manifestação chavista em Mérida - a autoria do crime seguia desconhecida ontem. O jovem era militante do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), do presidente Hugo Chávez. O governador não identificou o segundo morto, mas afirmou que ele também se manifestava em favor do governo e foi vítima da explosão de uma bomba.

Segundo testemunhas, o grupo chavista, revoltado com as mortes, invadiu a Universidade de Los Andes (ULA), de onde partiram os estudantes pró-oposição, e ateou fogo ao centro acadêmico. A tensão que teve início com a retirada da RCTV do ar, intensificou-se na segunda-feira à tarde, em Caracas, quando a polícia reprimiu com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha um grupo de estudantes da Universidade Católica Andrés Bello, que pretendia se manifestar na frente da Comissão Nacional de Telecomunicações (Conatel).

Os ânimos voltaram a se exaltar ontem nas ruas, com a chegada de uma marcha de estudantes das universidades privadas na frente da sede da emissora estatal Venezolana de Televisión (VTV). Diante da ameaça de invasão e de choques com um grupo de chavistas que chegou ao local, a polícia interveio e formou um cordão de isolamento. Em meio ao clima tenso, o presidente da VTV, Yuri Pimentel, autorizou a entrada de uma comissão de cinco estudantes.

O movimento estudantil reivindicava punição à VTV, com base na Lei de Responsabilidade Social de Rádio e Televisão, em razão do programa La Hojilla da véspera, no qual o apresentador Mario Silva qualificou os estudantes de "grupinho de violentos". A lei é frequentemente usada pelo governo para punir emissoras privadas.

A expectativa era que os estudantes fossem levados ao estúdio da VTV para que expusessem seus protestos, mas a emissora só apresentou imagens ao vivo da transmissão de uma cerimônia oficial - na qual Chávez firmava uma série de convênios com empresas estrangeiras para a exploração de petróleo. A comissão de estudantes deixou a emissora uma hora depois e um de seus membros, Nizar Faki, da Universidade Católica Andrés Bello, disse ter entregado uma carta ao presidente da TV, exigindo respeito ao movimento estudantil.

Por seu lado, os estudantes chavistas também se mobilizaram e se posicionaram diante de possíveis destinos de marchas da oposição, como a sede da Conatel, o Ministério de Obras Públicas e Habitação - cujo titular é o diretor da Conatel, Diosdado Cabello - e a Assembleia Nacional.