Título: Davos e o mundo pós-crise
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Fonte: O Estado de São Paulo, 28/01/2010, Notas e informações, p. A3

Recessão e risco financeiro ainda são temas de importância imediata nas discussões do Fórum Econômico Mundial. A última reunião do Fórum, em janeiro do ano passado, ocorreu durante a pior fase da recessão, quando a crise já se havia espalhado por todo o globo e não havia no horizonte sinal de reação. O encontro deste ano, em Davos, foi aberto ontem num ambiente de moderado otimismo, ainda marcado por muita insegurança. Os emergentes tomaram a dianteira na recuperação, mas a economia do mundo industrializado continua a patinar. O risco de uma recaída não foi totalmente descartado. Além disso, já se fala da formação de uma nova bolha de preços, estimulada pelos juros ainda muito baixos. Essa advertência foi repetida ontem pelo megainvestidor George Soros.

A grande novidade, já perceptível no ano passado e agora muito clara, é a avaliação positiva das economias emergentes. Uma pesquisa da PriceWaterhouseCoopers deixou clara a diferença entre o mundo rico e o mundo em desenvolvimento, quando se trata do estado de espírito dos dirigentes de empresas. Os mais otimistas estão na Ásia e na América Latina, incluído o Brasil. Analistas de grande reputação congregados pelo Fórum concordam com essa avaliação.

Mas as grandes dúvidas não se referem só às perspectivas de reativação em 2010 e ao ritmo de crescimento nos próximos anos. Ainda não está claro se o mundo pós-crise será mais seguro e se os governos nacionais e instituições multilaterais terão meios de prever e de evitar desastres como o de 2008. Também há duvidas ? e temores ? quanto ao grau de intervenção estatal na economia, a partir da crise.

Na maior parte do mundo o setor público expandiu sua presença nos mercados, controlando indústrias afetadas pela crise, investindo em bancos e, em alguns casos, estatizando instituições financeiras a um passo da falência.

Boa parte dos economistas, políticos e empresários cobra maior supervisão do sistema financeiro e uma regulamentação mais estrita de suas operações. A indignação popular com os desmandos praticados pelos banqueiros, principalmente nos EUA, estimula as autoridades a tratar com mão pesada os senhores das finanças. Mas há incerteza quanto à capacidade dos governos, a começar do americano, de impor aos bancos uma disciplina mais severa e eficaz do que a existente antes da crise.

O presidente do Banco de Compensações Internacionais (BIS), Jaime Caruana, mostra-se confiante: "Haverá reforma", disse ele, apontando o plano apresentado há duas semanas pelo presidente Barack Obama como um sinal positivo. Mas faz uma ressalva: regras melhores são apenas parte da solução. A segurança dependerá de fatores como a qualidade das políticas econômicas e o empenho do setor financeiro na busca de melhores padrões de administração. Além disso, como lembrou o dirigente de um grande banco inglês, a eficácia de qualquer reforma dependerá da cooperação internacional, por causa do caráter global das operações financeiras.

Soros declarou-se favorável, de modo geral, às propostas de regulação financeira apresentadas pelo presidente Barack Obama, mas classificou como prematura a ideia de tributação dos bancos. Também expressou dúvidas quanto à mudança de política em relação aos "bancos grandes demais para quebrar". Serão necessários alguns anos de experiência, com o governo mostrando na prática a disposição de não socorrer as grandes instituições, para esse tipo de discurso ganhar credibilidade.

A reunião deste ano do Fórum Econômico Mundial foi planejada com base numa ideia ambiciosa: congregar especialistas, políticos e ativistas para refletir sobre a construção do mundo pós-crise. Não valeria a pena juntar tanta gente para discutir as causas e o mecanismo da crise. Ainda há divergências interessantes a respeito desses pontos, mas também há um acordo amplo sobre as questões centrais, como as falhas da regulação e os estímulos à especulação irresponsável. As discussões iniciadas ontem, no entanto, revelam muita incerteza a respeito de como se poderá disciplinar o mercado financeiro, eliminar o problema das instituições "grandes demais para quebrar" e criar condições para um crescimento seguro.