Título: Uma ótima ideia usada de maneira oportunista
Autor: Mendes, Vannildo
Fonte: O Estado de São Paulo, 28/01/2010, Nacional, p. A7

Entrevista com Reinaldo Gonçalves: Professor de Economia Exterior

A proposta do governo de obrigar as empresas a pagar aos empregados participação nos lucros é, segundo o professor de economia exterior da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Reinaldo Gonçalves, uma "ótima ideia usada de maneira oportunista e equivocada". Ele afirma que, em ano eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva adota um discurso esquerdista. Na opinião de Gonçalves, a proposta - se levada ao congresso - não tem "nenhuma chance" de ser aprovada.

Como o senhor encarou a proposta do governo?

A divisão de lucros das empresas com os empregados faz parte da agenda da esquerda e da social democracia em todo o mundo. Na Alemanha, por exemplo, parte significativa do lucro das empresas é direcionada aos trabalhadores. Esse anúncio do governo Lula, no entanto, é uma ótima ideia usada de maneira oportunista e equivocada, o que é lamentável.

O senhor acredita, então, que a partilha de lucros das empresas com os funcionários deve ser obrigatória?

Sem dúvidas, deve ser compulsória. É uma regulação do excedente econômico. Uma coisa banal. O argumento dos conservadores contra o projeto - de que isso diminuiria o emprego - não faz sentido. Já se sabe que nenhuma empresa muda sua técnica de produção porque a mão de obra ficou mais cara. Tampouco a medida diminuiria investimentos. Ao contrário, eles só aumentariam porque o trabalhador vai querer produzir mais. É um ciclo virtuoso.

Não seria mais eficiente se patrões e empregados negociassem diretamente?

Essa é a negociação da raposa com a galinha. Acreditar que patrões e empregados têm o mesmo poder de negociação é um contrassenso.

Na opinião do senhor, quais são as chances de a proposta ser aprovada se for enviada ao Congresso?

Nenhuma. O governo não quer a aprovação. Em todo o ano de eleição o presidente Lula faz um discurso mais à esquerda - sem, contudo, levar adiante o que propõe. Foi assim na eleição de 2006 e está sendo assim agora.