Título: Classe média de Porto Príncipe também enfrenta filas por comida
Autor: Chacra, Gustavo
Fonte: O Estado de São Paulo, 18/01/2010, Internacional, p. A11
Em meio à destruição da cidade, haitianos falam em reconstruir o país e retomar a vida e seus projetos
Mensy Desfeignes estava no meio de uma multidão na fila para conseguir água e alimentos no estádio nacional de Porto Príncipe. Vestia uma blusa cor-de-rosa e uma calça jeans no campo controlado por militares brasileiros que trabalhavam com os americanos na distribuição de ajuda humanitária para os afetados no terremoto.
De longe, observou o repórter e perguntou se falava inglês. "Estou sendo tratada como cachorro. Não era para estar aqui, nesta fila, implorando por comida e água. Tinha casa, tinha TV, tinha computador, tinha dinheiro", afirmou a menina de classe média haitiana. Seu pai, segundo ela, é um conceituado artista plástico, mas todas suas obras foram perdidas nos escombros. Sua mãe, também na fila com o irmãozinho, possuía um restaurante, que desmoronou no terremoto.
"Eu estava terminando a escola e começaria a estudar Medicina", diz, com voz de revolta, Meyses, de 17 anos. Não poderá mais, já que a faculdade está destruída, com uma quantidade incerta de alunos e professores mortos. "Meu celular não funciona, não tenho como ligar para a Gaele", diz a menina sobre a irmã, enfermeira, que vive em Nova York e ainda não sabe do paradeiro da família. Fluente em francês, espanhol e inglês, ela diz que havia começado a estudar italiano para ter uma boa educação. "É a única coisa que poderá me ajudar no futuro. Mas estou com medo de ficar aqui para sempre, nunca mais ter minhas roupas e minhas coisas, que estão no meio dos escombros. Agora, só tenho o que está naquela tenda", acrescentou.
Na fila, também tinham algumas outras pessoas com curso universitário e que pertenciam à classe média de Porto Príncipe. Robensin Silier formou-se em Engenharia Elétrica recentemente. Preocupado com a aparência, coloca a camisa para dentro da calça. A empresa onde trabalhava não existe mais. Por sorte, ninguém de sua família morreu quando a casa desmoronou. Todos estavam fora. Agora, ele é mais um morador do estádio. "Eu tinha sonhos. Trabalhava na minha área, queria ter uma carreira. Essa ajuda humanitária apenas contribui para amenizar a situação. Mas não pretendo morar em um campo de futebol, tendo de ficar nesta fila para conseguir comida. Minha única esperança seria começar a trabalhar na reconstrução. O problema é que não deve começar tão cedo", diz. "Dá desespero. O Haiti era pobre, mas não desse jeito. Eu vivia bem", diz.
Beaubeun e Berny trabalhavam em uma revista alternativa de Porto Príncipe, onde havia um movimento artístico crescente. O primeiro deles está com o braço quebrado. "Era jornalista como você, mas agora a revista acabou. Dez pessoas morreram na redação. Eram as pessoas com quem estávamos todos os dias", lamenta. O outro acrescenta que não tem ideia do que poderá fazer a partir de agora. Como outros na fila, eles insistiam para o repórter contar a história deles. Todos entendem que a ajuda chegou. "Mas vai acabar logo, sempre esquecem da gente", diz Mensy. "E tome cuidado com o seu dinheiro. Daqui a pouco, vão querer te roubar".