Título: Governo reage a protecionismo argentino
Autor: Marin, Denise Chrispim
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/02/2010, Economia, p. B4
Negociadores pedem redução de barreiras que afetam mais de 400 produtos
O governo brasileiro deixou de lado a costumeira condescendência dos últimos anos e exibiu ontem maior firmeza perante a Argentina nas negociações sobre os conflitos comerciais. Os representantes brasileiros, numa reunião na Secretaria de Indústria em Buenos Aires, deixaram claro que é necessária uma redução significativa do número de medidas protecionistas aplicadas desde 2008 pelo governo da presidente Cristina Kirchner contra a entrada de produtos brasileiros.
Os representantes argentinos, sem contar mais com o argumento de que o setor industrial local está sob forte pressão da crise mundial, admitiram que os setores sob proteção serão "reavaliados" para proceder com uma eventual redução do número das barreiras, basicamente as licenças não automáticas, que afetam mais de 400 produtos brasileiros.
"Há uma forma de manter as licenças não automáticas, embora flexibilizando-as", argumentou o secretário de Indústria da Argentina, Eduardo Bianchi, em defesa das medidas. Ele, no entanto, disse que não haverá "anúncios imediatos" nessa área. "Mas vamos analisar as possibilidades." No entanto, destacou que para isso será necessário levar em conta as "sensibilidades" de vários setores empresariais argentinos.
O secretário executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior do Brasil, Ivan Ramalho, manteve o estilo diplomático. Mas, embora falando suavemente, atacou o protecionismo argentino: "Nossa posição é a de reduzir o número de produtos sujeitos a licenças não automáticas. As licenças criam um tipo de insegurança para o importador (argentino) e seu fornecedor (brasileiro)".
Ramalho destacou que 2010 se apresenta como um ano "muito bom" para essa redução, já que a economia argentina mostra recuperação, o que permitiria reduzir as "sensibilidades". "Além disso, o comércio entre o Brasil e a Argentina está se recuperando de forma significativa, após grande queda no ano passado. Só em janeiro as exportações argentinas para o Brasil cresceram 50% E as exportações brasileiras para a Argentina também aumentaram 50%", disse Ramalho.
Entre os setores argentinos com "sensibilidades" estão as empresas de máquinas agrícolas, televisores, aparelhos de ar condicionado, motocicletas e material elétrico. Além desses, também são considerados "sensíveis" os setores de baterias, calçados, freios, embreagens, móveis de madeira e papel.
A consultoria Abeceb afirma que as barreiras prejudicam 17,3% dos produtos brasileiros exportados para a Argentina. Dessas, 9,9% são licenças não automáticas. Segundo fontes do Itamaraty, as barreiras argentinas afetam de 14% a 15% do comércio brasileiro. No entanto, para a presidente Cristina, as barreiras não atingem mais de 7% das vendas brasileiras no mercado argentino.