Título: Por ordem do Planalto, PT ameniza reação a Ciro de olho em aliança
Autor: Oliveira, Clarissa ; Rosa, Vera
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/02/2010, Nacional, p. A4

Berzoini diz apenas que deputado foi "injusto" ao atacar coligação com peemedebistas; Dirceu prefere silêncio

Por ordem do Palácio do Planalto, a cúpula do PT resolveu "baixar a bola" e não estabelecer com o deputado Ciro Gomes (PSB-CE) um circuito de debate. Mesmo incomodado com as declarações de Ciro, que disse em entrevista ao Estado que "santo Lula" está errado ao tentar tirá-lo da disputa presidencial e o PMDB é um "roçado de escândalos já semeados", o comando petista preferiu não responder no mesmo tom.

Presidente do PT, o deputado Ricardo Berzoini (SP), um dos poucos escalados para rebater as declarações do ex-ministro de Lula, disse que Ciro "está sendo injusto" ao criticar a aliança selada entre PT e PMDB para as eleições presidenciais deste ano. "O governo sempre respeitou o desejo de Ciro de se candidatar à sucessão do presidente Lula", disse. O petista lamentou que o deputado, para expor suas opiniões, tenha atacado aliados. "Achamos que unidos temos mais condições de lutar politicamente."

Também integrante da cúpula do PT, o deputado José Eduardo Martins Cardozo (SP) considerou legítima a posição de Ciro. "É legítimo o direito de Ciro ser candidato, embora eu ache que avaliação do Lula é correta: quem defende a continuidade do governo deveria estar junto em torno de uma única candidatura, que é a da ministra Dilma Rousseff", afirmou.

Em dezembro passado, em café da manhã com jornalistas, Lula foi questionado sobre a aliança com o PMDB. "Esses são os partidos que existem, não podemos fazer alianças com partidos extraterrestres", disse o presidente.

ESTRATÉGIA

A posição amena adotada por líderes petistas ontem, na saída de uma reunião da Executiva Nacional do PT, em Brasília, segue a linha da estratégia traçada pela cúpula da legenda de evitar atritos com partidos da base, em meio aos preparativos para a corrida presidencial. Assim como dirigentes petistas evitaram o confronto direto com Ciro, o ex-ministro José Dirceu, duramente atacado pelo deputado na entrevista ao Estado, também preferiu não comentar as declarações. Ciro disse que, no passado, Dirceu "estava decidido a destruir Lula" e descreveu como "golpista" a articulação do ex-chefe da Casa Civil para as eleições deste ano.

Por enquanto, a ordem no PT é guardar as munições para intensificar a polarização com o PSDB. Parte do plano ficou exposta em outro tema debatido na reunião de ontem: os preparativos para o 4º Congresso do PT, no dia 18, onde haverá o lançamento oficial da candidatura presidencial da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff.

Entre os documentos que seriam analisados ontem pelo comando partidário está a versão preliminar do manifesto que está sendo preparado para o momento do anúncio da candidatura. O documento, obtido pelo Estado, relembra a chegada do PT ao Planalto e parte para o ataque à gestão do ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso. Afirma que o governo Lula precisou enfrentar "as dificuldades macroeconômicas e administrativas de um Estado desmontado, que não planejava e se prostrava diante das dificuldades e das crises".

Ficou claro, também, o tratamento que o PT planeja dar ao assunto do mensalão na campanha. O texto aposta na tese de que a crise de 2005 serviu aos interesses dos adversários do governo. "Quando o Brasil começou a se recuperar, enfrentamos uma dura crise política, pela qual tentaram liquidar nosso projeto político e grandes lideranças, mas fundamentalmente tentaram destruir as esperanças do povo."

Escrito por Berzoini, que encerra na próxima semana dois mandatos como presidente nacional da legenda, o documento seria submetido ontem à apreciação da Executiva. Sujeito a emendas, o documento ainda poderá sofrer alterações até a data do congresso. Ainda assim, o texto servirá de base para o manifesto.

Dilma, como esperado, só aparece quando o documento já se aproxima do fim. Ela é mencionada como "uma das principais responsáveis pela trajetória do governo Lula" e "uma mulher que lutou contra a ditadura e que militou pela igualdade e pela liberdade". "O partido que elegeu o primeiro operário à Presidência da República tem a honra e o privilégio de apresentar, na comemoração de seu trigésimo aniversário, aquela que será a primeira mulher a ocupar o mais elevado espaço político da Nação: a companheira Dilma Rousseff", conclui o texto.