Título: Mesmo com o cerco ao cigarro, indústria do tabaco cresce no Brasil
Autor: Ogliari, Elder
Fonte: O Estado de São Paulo, 03/01/2010, Economia, p. B6
Das plantações de tabaco à produção de cigarros e exportação de fumo, setor movimenta R$ 15 bi por ano no País
As conquistas recentes das campanhas contra o consumo de cigarros e assemelhados não reduziram a força da cadeia da produção, processamento e comercialização do tabaco no Brasil. Graças às exportações, o segmento econômico segue vigoroso e, após alguns recuos entre 2005 e 2007, voltou a apresentar números crescentes.
Dados da Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra) indicam que 223 mil famílias brasileiras cultivaram a planta em 408 mil hectares e produziram 792 mil toneladas na safra 2008/2009. Vinte anos atrás, esse número era muito menor. Na região Sul, responsável por 95% da produção brasileira, 127 mil famílias plantaram 202 mil hectares e colheram 368 mil toneladas.
A cadeia movimenta R$ 15,2 bilhões por ano. Destinou R$ 7,7 bilhões ao governo, em impostos, R$ 3,2 bilhões à indústria, R$ 3,3 bilhões ao produtor e R$ 927 milhões ao varejista.
O Brasil é o segundo maior produtor e o maior exportador mundial de fumo. Em 2008, vendeu 686 mil toneladas para cerca de cem países ao preço de US$ 2,7 bilhões, segundo o SindiTabaco - Sindicato da Indústria do Fumo.
Enquanto estudiosos da área da saúde afirmam que o custo do tratamento dos males causados pelo cigarro é maior do que a arrecadação que o produto proporciona aos cofres públicos, agricultores e indústrias sustentam que vale a pena manter a atividade porque ela é mais rentável que outras culturas agrícolas e seguirá atendendo uma demanda mundial ainda crescente pelos derivados de tabaco. Paradoxalmente, os dois lados têm vitórias a comemorar, pelo menos no Brasil.
No País, a mobilização dos antitabagistas já conseguiu a proibição do uso de cigarros e assemelhados em ambientes públicos e privados, desde 1996, e em aviões e veículos de transporte coletivo, desde 2000.
Também conquistou o veto à propaganda em 2000 e as advertências sobre os riscos à saúde em embalagens, em 2001. E comemorou a ratificação, em 2005, da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco, um tratado internacional que pretende reduzir danos e mortes causadas pelo tabaco.
Quem frequenta ambientes coletivos fechados já nota a diferença que uma pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em novembro comprovou. O levantamento indica que o País tem 26 milhões de ex-fumantes, número superior aos 24,6 milhões de fumantes. Estes chegaram a corresponder a 32,4% da população em 1989 e agora estão reduzidos a 17,2%.
PICO DE PRODUÇÃO
Apesar da queda no consumo, a produção de tabaco quase dobrou no mesmo período. O pico, no entanto, não ocorre na colheita atual, mas foi registrado na safra 2004/2005, quando 198 mil famílias plantaram em 439 mil hectares e produziram 843 mil toneladas, não chegando ao recorde de 851 mil toneladas do ano anterior por causa da estiagem. Desde então, houve um recuo para 180 mil famílias, 349 mil hectares e 714 mil toneladas na safra 2007/2008, e retomada da expansão até os números da safra atual.
O pico tem explicações na conjuntura internacional. No início da década, os agricultores brasileiros ampliaram o cultivo do tabaco para suprir a demanda das empresas processadoras, que haviam perdido fornecedores expulsos de suas terras pelo governo do Zimbábue, país que estava entre os principais produtores do mundo.
As exportações brasileiras saltaram de 334 mil toneladas em 1999 para 610 mil toneladas em 2005 e 700 mil toneladas em 2007, segundo o SindiTabaco.
A queda de produção verificada entre 2005 e 2007 também está ligada a circunstâncias do próprio negócio. Malawi e Moçambique ocuparam espaços no comércio internacional de tabaco. No Brasil, alguns agricultores que haviam aderido ao cultivo durante o boom optaram por sair no refluxo.
EQUILÍBRIO
Ao mesmo tempo, estoques altos levaram as empresas a pedir a redução da área cultivada naqueles anos.
"Esses ajustes são feitos de acordo com as perspectivas do mercado", salienta o presidente do SindiTabaco, Iro Schünke. "No sistema de integração, a produção pode ser negociada ano a ano, de comum acordo entre as partes."
A perspectiva atual é de oscilações menores dos que a da primeira metade da década. Tanto que em 2008 e 2009 houve uma pequena expansão nas plantações. "Hoje há um certo equilíbrio no estoque mundial, o que é bom para quem planta e exporta", avalia Schünke.