Título: O Gripen é um avião que não voa, que não existe, diz governo francês
Autor: Lopes, Eugênia
Fonte: O Estado de São Paulo, 07/01/2010, Nacional, p. A4

O governo francês rompeu ontem um silêncio de 50 dias e se manifestou sobre o relatório da Aeronáutica do Brasil que classificou o caça Rafale em último lugar na licitação FX-2, para renovação da esquadrilha da Força Aérea Brasileira (FAB). Hervé Morin, ministro da Defesa, voltou a afirmar que o Palácio do Eliseu está sereno e a decisão do governo brasileiro será política. O executivo disse ainda que o caça francês "é incomparável" com o favorito da FAB, o sueco Saab Gripen, porque um já é operacional, e não "um avião que não existe".

Em sintonia com o discurso do ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, que falou à imprensa em Genebra, Morin afirmou que a proposta francesa está inserida em uma "parceria industrial maior para permitir ao Brasil constituir uma plataforma industrial aeronáutica de primeiro plano para toda a América Latina". E reforçou: "Nós estamos no quadro de uma parceria estratégica com o Brasil, que é uma parceria política. Logo, a decisão será política."

Morin também disse não ver parâmetros de comparação entre o Rafale e o Gripen NG. "Sem querer ofender ninguém, mas podemos comparar uma Ferrari como o Rafale com o Gripen, que é um Volvo?", ilustrou, lembrando que a aeronave sueca ainda não saiu das pranchetas de design. "O Rafale é o único avião multifunções do mundo. O Gripen é um avião que não voa, que não existe, que está apenas nos escritórios de estudo do construtor", argumentou. "Gostaria que comparássemos o que é comparável."

Morin, entretanto, não fez referência ao caça F-18, da norte-americana Boeing, classificado pela FAB em segundo lugar, também à frente do Rafale.

Na entrevista à rádio RMC, o ministro também argumentou que o caça francês foi selecionado como primeiro do ranking na licitação realizada pela Suíça para a renovação de sua esquadrilha. E afirmou que não foi informado oficialmente sobre o relatório da FAB, classificando as informações sobre o tema como "rumores de um jornal", em referência à reportagem da Folha de S. Paulo. "Estamos em uma competição extremamente dura na qual todos os rumores são postos sobre a mesa por uns e outros", afirmou, insinuando a atividade de lobistas das concorrentes. Procurada novamente pelo Estado em Saint-Cloud e em Brasília, a Dassault, fabricante do Rafale, não se manifestou.

REVÉS

Além da ameaça de não conseguir vender o Rafale ao Brasil, a indústria aeronáutica francesa sofreu outro revés. De acordo com reportagem da versão alemã do jornal Financial Times, a EADS, companhia projetista do avião de transporte militar A400M, estaria disposta a abandonar os planos de fabricação do modelo. A informação implica o Brasil porque a Embraer tem um projeto de avião de transporte, o KC-390.