Título: Preço de commodity preocupa BC
Autor: Landim, Raquel
Fonte: O Estado de São Paulo, 17/01/2010, Economia, p. B4
Cotações das matérias-primas no mercado brasileiro avançaram 11,8% em reais entre outubro e dezembro de 2009
Os preços das commodities já sobem, em reais, no mercado interno brasileiro, e o movimento preocupa o Banco Central (BC). O índice Commodity Research Bureau (CRB), principal medida das cotações das matérias-primas, avançou 11,8% na moeda brasileira entre outubro e dezembro. Um cálculo da consultoria A.C. Pastore & Associados aponta que, para as commodities agrícolas, a alta chegou a 22,8%.
É a primeira vez que as commodities sobem em reais. Até o último trimestre do ano passado, a valorização da moeda brasileira compensava o aumento dos preços das matérias-primas e dos alimentos e não permitia que o impacto chegasse ao mercado brasileiro.
Depois de outubro, o real ficou estável e os preços internacionais das commodities aceleraram a alta. Isso quebrou uma regra macroeconômica clássica no Brasil: quando as cotações das commodities sobem, a exportação é mais robusta, e a consequência natural costumava ser a valorização do câmbio.
Uma série de fatores colaborou para mudar esse movimento. O dólar perdeu valor globalmente. A aposta do mercado é de um déficit em conta corrente de US$ 40 bilhões para o Brasil este ano. Ao adotar o IOF sobre as operações financeiras, o governo já demonstrou que não vai tolerar uma valorização excessiva do real.
A inversão chamou a atenção do BC, que manifestou receio no último Relatório de Inflação. "O novo cenário poderá se configurar em um período de aceleração de preços, impulsionado pelos efeitos defasados da liquidez ofertada pelos bancos centrais e pelas pressões associadas às commodities", informou o documento.
"A alta das commodities é um dos fatores de risco para a inflação no médio prazo, o que justifica a preocupação do BC. Mas tudo vai depender da continuidade do movimento", disse o economista-chefe da Corretora Concórdia, Elson Telles.
Para o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, "a alta do preço das commodities é hoje o maior risco da inflação sair do centro da meta, mas não é para já". Ele não acredita que esse ciclo de alta das commodities terá vida longa. "Uma coisa é recuperar o nível de preços, outra é prosseguir indefinidamente."
Os analistas acreditam que os alimentos vão ser um fator de pressão para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) este ano. Em 2009, o índice fechou a 4,31%, abaixo dos 5,9% de 2008. Boa parte da queda pode ser atribuída aos menores preços dos alimentos.
As previsões, por enquanto, apontam para um IPCA dentro da meta do BC de 4,5% este ano. O indicador terá uma boa ajuda dos aluguéis, que não devem ser reajustados, acompanhando a deflação registrada pelo Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M) no ano passado.
Os problemas para a inflação só devem aparecer em 2011, mas os economistas lembram que o BC não pode atuar avaliando o curto prazo. A maioria dos analistas prevê que o aperto monetário deve começar entre março e abril.
Para a sócia da Galanto Consultoria, Mônica Baumgarten de Bolle, "o BC não pode deixar de se preocupar com os preços das commodities, mas esse não será o principal canal inflacionária este ano". Ela acredita que a dinâmica da economia interna - ocupação rápida da capacidade instalada da indústria, crédito farto e uma política fiscal relaxada - será o alvo central das atenções do Banco Central.
O economista-chefe da Quest Investimentos, Paulo Miguel, avalia que a alta das commodities "é consistente, mas não explosiva". Ele diz que o impacto inflacionário interno do novo ciclo de alta das matérias-primas será maior do que em 2009, mas o perigo não é iminente. "No cenário de curto prazo, está tudo ok."
Miguel alerta, porém, que o Brasil "não tem muita gordura para queimar" na inflação. As previsões de crescimento de 5% a 6% da economia apontam para uma demanda muito aquecida, que pode provocar reajustes. "Já temos um cenário de alta de juros por causa do ritmo da atividade econômica. Os alimentos são um risco a mais."
Outro efeito da recuperação das commodities é o aumento dos preços dos produtos exportados pelo País. Entre maio e novembro de 2009, o índice de preço das exportações, calculado pela Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), subiu 12,4%.
Os analistas não acreditam que esse efeito será suficiente para garantir um bom resultado para a balança comercial, a exemplo do que ocorreu em anos anteriores, porque as importações devem crescer com vigor. O mercado prevê superávit de apenas US$ 11,2 bilhões para a balança este ano, conforme o boletim Focus, do BC.
O impacto da alta das commodities para a renda do produtor agrícola brasileiro ainda é limitado. O País está em período de entressafra e os agricultores pagam as dívidas do ano passado. Mas pode estimular o plantio a partir de março.